domingo, 19 de outubro de 2008

Osvaldo poeta, 'detective' e 'manager' da Quinta do Mocho

Osvaldo poeta, 'detective' e 'manager' da Quinta do Mocho Basta pôr o pé na rua. Há sempre alguém, na Urbanização da Quinta do Mocho, em Sacavém, que chama por Osvaldo de Sousa. É a tia Bia a perguntar pela mãe dele, o Braima a convidá-lo para ir a Lisboa, as miúdas a combinar a hora do ensaio de dança. Desta vez foi a Daniela e está de sobrolho carregado porque é que, na longa lista de agradecimentos do seu primeiro livro, não se encontra o nome dela? "É só um rascunho. Falta ainda acrescentar muitas pessoas", gagueja ele. Acabado de encadernar, os poemas de Osvaldo correram de mão em mão. O bom seria ver a obra à venda nas livrarias, suspira Osvaldo. Mas, para já, os seus versos são um sucesso no bairro. A poesia é apenas um dos motivos para o angolano ser tão popular na Quinta do Mocho. Razões não faltam. É rapaz para conseguir uma sala para as Divas do Mocho ensaiarem uns passos de dança; fazer com que os professores percam o medo e visitem a urbanização; descobrir o paradeiro de familiares desaparecidos; pôr o bairro em peso a varrer o lixo das ruas.Osvaldo esclarece que fez tudo com a ajuda dos amigos, mas não foi por acaso que o elegeram presidente da Associação de Jovens de Intervenção Multicultural (AJIM). Ainda não tem e não sabe se algum dia terá local fixo para trabalhar. Isso não o impede de organizar, juntamente com os outros amigos, sessões de hip hop, de capoeira ou de apoio escolar aos alunos do bairro. E, se na altura do aperto, toda a gente se lembra dele, é porque não é homem para desistir à primeira. Já fez um pouco de cada coisa - desde mediador cultural, na Escola Bartolomeu Dias, até serviços administrativos no Centro de Saúde de Moscavide. Mas a história de um miúdo que perdeu o rasto do pai é uma das muitas vitórias que gosta de lembrar. Sem família nem documentos, o santomense estaria condenado à clandestinidade. Osvaldo agarrou o caso, com a persistência de um detective. Com um nome escrito num pedaço de papel, percorreu os bairros das redondezas. Nem sinal do homem. Partiu rumo a outras terras Camarate, Catujal ou São João. Falou com meio mundo, mas a sorte não mudou. Apanhou boleia na estrada e chegou ao outro lado do rio. Na Charneca de Caparica conseguiu um número de telemóvel que correspondia ao nome que trazia escrito num papel no fundo do bolso. Fez uma tentativa e, do outro lado da linha, ouviu a voz do desaparecido. "O senhor até já estava legalizado e assim foi mais fácil regularizar a situação do seu filho", recorda.Haverá mais episódios para contar acerca deste miúdo que chegou à Quinta do Mocho há 15 anos para viver numa barraca com a mãe. Mas Osvaldo prefere concentrar as suas energias na missão seguinte. Um destes dias vai vestir a pele de manager e descobrir uma editora para gravar um CD com os artistas do bairro "Há tantos talentos escondidos que seria uma pena ficarem no anonimato", explica. Kery, o rapper, Indira, a dançarina-cantora e Braima, o rapaz que recuperou os ritmos tradicionais africanos esfregam as mãos de contente. Não é para menos. "Quando aquele rapaz põe uma ideia na cabeça, só descansa depois de conseguir o que quer", contam os amigos do bairro.

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