From Wikipedia, the free encyclopedia
Mário Simões Dias de Figueiredo (Coimbra, 2 July 1903 – Lourenço Marques, 8 July 1974) was a Portuguese musicologist and professional violinist (a disciple of Lucien Capet and collaborator of Fernando Lopes Graça, among others), as well as a prolific music critic and poet. He was blind from the age of 10[1].
As an academic affiliated with the University of Coimbra, he authored works on music theory and the history of music as well as introductory texts concerned with raising public awareness of classical music; his collection of essays A Música, essa desconhecida became a popular introduction to music history in Portugal.[2][3]. For 13 years (from 1950 to 1963) he maintained a series of weekly live radio shows devoted to the divulgation of classical music, broadcast by the former Emissora Nacional[4][5][6]. As a poet[7], he was affiliated with the Portuguese neo-realist tradition and is celebrated chiefly for his book-length poem Cântico das Urzes[8][9].
Mostrar mensagens com a etiqueta poesia;. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta poesia;. Mostrar todas as mensagens
domingo, 4 de julho de 2010
Mário Simões Dias
From Wikipedia, the free encyclopedia
Mário Simões Dias de Figueiredo (Coimbra, 2 July 1903 – Lourenço Marques, 8 July 1974) was a Portuguese musicologist and professional violinist (a disciple of Lucien Capet and collaborator of Fernando Lopes Graça, among others), as well as a prolific music critic and poet. He was blind from the age of 10[1].
As an academic affiliated with the University of Coimbra, he authored works on music theory and the history of music as well as introductory texts concerned with raising public awareness of classical music; his collection of essays A Música, essa desconhecida became a popular introduction to music history in Portugal.[2][3]. For 13 years (from 1950 to 1963) he maintained a series of weekly live radio shows devoted to the divulgation of classical music, broadcast by the former Emissora Nacional[4][5][6]. As a poet[7], he was affiliated with the Portuguese neo-realist tradition and is celebrated chiefly for his book-length poem Cântico das Urzes[8][9].
Marcadores:
Mário Simões Dias,
poesia;,
Simões Dias,
violino
domingo, 18 de outubro de 2009
JOÃO DA MALHA (Poema em verso, mais tarde posto em prosa)- por Mário Simões Dias
O sol já se aproxima do poente,
Quando, ronceiro,
Quase aderente ao solo em que caminha,
João da Malha sobe lentamente
Pelo carreiro
Da Pedruguinha.
.
Leva a enxada ao ombro e, de olhar fito
Num ponto vago
Do infinito,
Seus olhos são batel que se perdeu
No grande lago
Azul do céu.
.
Ao chegar à courela,
Para um segundo;
Depois,com modos bruscos,agitados,
Empurrando a cancela,
Entra na leira que há bem poucos dias
Ainda era para ele um mundo
De cuidados,
De alegrias!...
.
Entra de manso,devagar,
Como quem vaifazer uma surpresa,
Ou vai para roubar!...
Friamente,olha em roda:
É ela, a Pedruguinha,
A sua leira,sua riqueza...
É ela toda,Toda inteirinha!...
.
Num arremeço,
Para afastar a sugestão que vem,
Como um torpêço,
Da terra mãe,
João da Malha, brusco,Empurra para fora, com a enxada,
O penedo negrusco
Que lhe veda a entrada.
.
“Quem poria aqui isto “?!...
E, fechando a cancela com barulho,
Parece desejar,
Ante o caso banal, mas imprevisto,
Impedir o pedregulho
De voltar.
. Lento, começa A caminhar pela vereda estreita, Aberta ao longo da propriedade, E, pesadão, Grave, sem pressa, Aqui se curva sobre um talhão, Além ajeita, Aqui contempla, mais além espreita As mil promessas da novidade. . O sol ainda brilha, ainda há calor, E, sob a luz que a banha, A terra, a dar-se toda ao sol ardente, Ao escaldante amor Desse amigo distante, Sente a volúpia estranha De quem se entrega voluntáriamente A dois braços de fogo devorante. . Amor fecundo, Volúpia luminosa, enternecida, Orgulho de sofrer no mais profundo Do seio materno ... Contentamento da missão cumprida, Renovo eterno Da mesma vida!... . João da Malha Não sabe definir tudo o que sente E a terra lhe sugere; Mas qualquer coisa que no ar se espalha E que da terra vem, Fá-lo pensar inconscientemente Numa mulher Que vai ser mãe. . E começa a lidar. Por entre as couves altas, devagar, Não vá tocar nalguma, A enxada vai abrindo Estreito rêgo, longo e coleante, Por onde a água há-de saltar, sorrindo, Levando a cada uma, Após um dia sofocante, Um pouco de seu frescor Reanimador E fecundante. . E João da Malha Cisma, enquanto trabalha. Porque não há-de ser assim?... A terra Leva tudo o que um homem pode dar, O trabalho, os cuidados, o suor, E para lhe arrancar Aquilo que ela encerra, O vinho,o pão, Senhor!... Quanto martírio e quanta ralação!... . E depois, melindrosa que ela é!
Hoje p.rometedor e Como um sorriso de criança, Amanhã, quem a viu e quem a vê! Porque caíu geada, Porque o vento soprou, ei-la mudada, Perdido numa hora, Um ano de esperança!... . É o mildium na uva, É a moléstia a dar nos batatais... O bicho que roi tudo e tudo estraga... A seca... a chuva... A neve... os vendavais.,..
Que às vezes também são behttp://www.blogger.com/img/blank.gifm boa praga!....
.. Ainda o ano passado, As oliveiras a vergar ao peso Do fruto já vingado, E nisto vem um vento de tal raça, Um furacão tão tezo, Que deitou tudo abaixo!... Uma desgraça!... . E é isto a vida de quem sacha e cava E rega e lavra e monda E revolve hora a hor a terra ingrata!... Olhos sempre no chão, vontade escrava Da terra,que não sabe dizer bonda A quem a amanha e trata. . Sempre uma lida insana! Sempre a espinha dobrada Sôbre a enxada, Ou sobre a foice, quando a ceifa aponta! E sempre a mesma cabana, Sempre a mesma telha vã, O mesmo caldo, e sempre incerta a conta Do que se tem para amanhã!... . Os gozos onde estão?... É só à noite uns dedos de cavaco À porta da loja Do Zé do Paleio, Ou então, Quando um homem se arroja A perder um pataco, Uma bisca lambida ou um sete-e-meio... . E daqui não se sai! É como a roda do rio Sempre na mesma cantiga. O filho faz o que fazia o pai, Sem uma fuga,sem um desvio, Sem uma queixa pela fadiga. . Raio, que vida esta! Até um homem deixa de ser homem, Para ser uma besta, Impassível diante do que sente, Das mágoas que o consomem Ininterruptamente!... . Solene como um rei, o sol declina, Mas tão manso, tão sem pressa, Que a gente imagina, Ao vê-lo baixar, Que o sol já começa A sentir pena de nos deixar. . Em baixo, as casas da aldeia Espalham-se no vale extenso e aberto Ao ar e ao sol E, mais além, num zig-zag incerto, A estrada nova coleia, Lembrando gigantesco caracol. . Há manchas na paisagem, Manchas amarelinhas de trigais Em terras baixas de regadio, Manchas verdes de folhagem, O verde claro dos olivais, O verde escuro dos pinheirais, Grave e sombrio. . E ainda o verde tenro, amarelado, Das vinhas que, com graça luninosa, Trepam encosta arriba, Mostrandoos cachos de ouro ao sol dourado, Como dozela vaidosa Que seus enfeites exiba. . Pelas altas montanhas, Onde, por entre pedras calcinadas, Nem musgo rasteiro espreita Ou deita Sua breve penungem, Por essas terras altas, desoladas, Há largas manchas castanhas E velhos tons de ferrugem. . Mas a paisagem ri suavemente E canta sob o sol que tudo alegra E tudo acaricia. Só João da Malha,olhando a terra, sente Que a vida é negra, Negra e sombria!... . ............................................................................................ . Alegre, verdejante, sossegada, A Pedruguinha, A meio do outeiro, Fica em poial risonho alcandorada, Como avezinha No seu poleiro. . Não é grande, isso sim!... Mas faz milagres o amor de quem Trabalha no que é seu, E assim, A Pedruguinha amanhada, Bem sachada, Bem lavrada Por quem a vida lhe deu, Tem os aspecto de alguém Que quiz pagar com bençãos todo o bem Que recebeu. . Nela, ou por milagre ou por encanto, O suor fez-se planta, fruto e flor, A humildade vitória, A luta canto, E o gesto rude, para sua glória, Benção e graça do Senhor. . Nela, tudo sorri, As folhas largas como mãos abertas, Que do cuval se estendem, As longas vagem que pendem Das vara dos feijoeiros, As bojudas abóboras, que ali Lembram calvas cabeças descobertas, E os próprios rubros tomates São risadas escarlates Que irrompem dos tomateiros. . Ao canto do poial, Robusta, musculosa, quase atlética, A despeito de um ar suave de avozinha, A figueira negral Empresta certa estética, Imprime certo tom patriarcal À Pedruguinha. . E gentil, altaneira, Ao ventozinho leve que começa A soprar sorrateiro, Um campinho de milho ondula,ondeia E agita sorridente uma promessa Em cada espiga cheia. . João da Malha Conhece há muito tempo esse recanto; Por lá brincou petiz E, homem feito, já por lá trabalha Há muito ano Num labor insano, Amanhando, Sachando, Semeando, Levando a cada canto A vida a uma semente, a uma raiz. . De tanto ver no solo projectada A sombra do seu vulto, Como figura animada A repetir-lhe os gestos vigorosos, Há dentro dele o sentimento oculto, A secreta noção De que os traços sinuosos Da sombra que o retrata, muda e calma, São, no solo que ele ama, a projecção Do seu ser, em corpo e alma. . Na terra que cultiva, Algo da sua vida se insinua E se renova nas espigas cheias, Alguma coisa bem viva, Cuja vida já foi sua, Sangue que já correu nas suas veias. . Por isso, limitada a aspiração Da sua vida ao chão que lhe sorri, Correm-lhe os dias naturais, felizes, E sente-se irmão Das plantas que ali Colheram raizes. . Agora, porém, Alguma coisa dentro dele existe Que o faz olhar a terra misteriosa De diversa maneira, Alguma coisa o detém, O traz alheio e triste, O livra da atracção, tão poderosa, Com que a terra o prendeu a vida inteira. . Constante sobresslato Faz-lhe da vida frágil batelinho Em luta no mar alto, E a estrela cintilante, Que do norte o guiava no caminho, Como astro bendito, Vagueia agora, fugitiva, errante, Perdida no infinito. . Outrora Seguia confiante a sua estrada, Única aberta sob um sol de festa; Agora Vê-se diante de uma encruzilhada, Sem decisão para tomar por esta Ou por aquela estrada. . E contudo, É preciso fixar-se, dar um norte, À vida que não para, E não cruzar os braços... sobretudo Ter coragem, ser forte E olhar a vida em frente, cara a cara. . E João da Malha, João da Malha Cisma, enquanto trabalha. . Após imagem desenterra imagem, Sucedem-se lembranças De mil castelos que no ar ergueu; É toda uma paisagem Que dentro dele se estende e desenrola, Num agitar confuso de esperanças, De saudades da vida que viveu, Fumo que ao longe se evola. . Porém, a sobrepor-se a tudo quanto Sua lembrança evoca, A afagar-lhe os desejos, a ambição, Surge lá lomge, tentadora, envolta Em misterioso encanto, A terra da tentação, A terra ardente, cuja luz sofoca, Mas cujo seio, a abrir-se em pomos loiros, É uma torrente à solta, Um perpétuo jorrar de mil tezoiros!... . O Brasil!... O Brasil!... O mistério, o país maravilhoso Que as espumas ocultam!... Como nos longes seus tesoiros mil, Fazendas, cafèzeiros, sol radioso, Aos olhos dele avultam!... . Muitas vezes ouvira já falar Nesse caudal gigante que parece Que no há-de ter fim!... Mas até lhe custava acreditar Que no mundo houvesse Uma terra assim!... . Mas era verdade! Ele bem vira, com seus próprios olhos, Como o Cristiano do Sobral voltara: Ar de cidade, Notas aos molhos, Um cheiro a rico de virar a cara! . Sempre bem posto, Bem preparado, Dedos cheios de aneis, Um riso de quem anda bem disposto, E então tratado Que nem os reis!... . Boa gravata ao pescoço, Boa bota de verniz, De polimento ou lá que raio é!... Enfim, um brasileiro, um ricalhoço, Que, pelo que se diz, Nem sabe ao certo quanto tem até!... . Já se sabia que ele estava bem. Ainda antes de vir, Comprara o terreno da Ínsua da Vasa, Que o Rasca vendera por não ter vintém! E agora o Cristiano já dissera Que ía construir Uma grande casa, Como ninguém na aldeia inda tivera! . Que tal seria a casa, era de ver! Alta, caiada, Varandas corridas, E lá por dentro salas e mais salas!... E ele, João da Malha, sem poder
Largar a enxada Sempre amarrado à mais ruim das vidas, A sofrer, a roê-las, a amargá-las!... . E tudo porquê ? Porque não fôra, como o Cristiano, Capaz de arremeçar consigo até À outra margem do largo oceano. . Tudo porque deixara A rotina lançar-lhe aos pulsos duros Apertada cadeia E porque desde então assim ficara, Preso por ela, dentro dos muros Da sua aldeia. . Forte imbecil!... Sempre amarrado ao mísero torrão, Feito escravo de todos!... Que papalvo!... E o Brasil, o Brasil Ao alcance da mão, Que era só resolver-se e estava salvo!... . E afinal porque não se resolvia?!... A todo o tempo é tempo de emendar Um disparate, um erro! Deitaria consigo, deitaria! Era novo, sabia trabalhar, Tinha uns braços de ferro. . Para a passagem, isso é que era pior!... Mas que diabo, Não fosse outro o torpeço!... Não tinha a Pedruguinha o seu valor?... Vende-la-ia, pois então, e ao cabo, Compraria mais terras no regresso. . Vendê-la-ia, sim, E o que de lá mandasse em cada carta Que escrevesse à mulher, Raios a partissem se, enfim, Não chegasse à larga,à farta Para a tropa cá viver!... . E João da Malha, Vendo-se já na terra abençoada Das riquezas sem conta, Já consigo sorria: “Adeus, vida infeliz de quem trabalha!... Adeus, alvião!... Adeus enxada” !... A sua decisão estava pronta: Iria. . ............................................................................................................................................... . Cansado de cismar, Reparando que o sol ía fugindo, Que se acabava o dia, João da Malha deixara-se tombar Sobre uma pedra, a saborear, sorrindo, A vida que antevia... . Em roda, Uma paz suavíssima,discreta, Descia sobre a terra toda E, docemente, Suavemente, A tarde,com seus últimos lampejos, Serena, quieta, Fôra subindo pela vertente E agora, presa nos altos cumes Por fios breves, quase a quebrar, Procurando outros céus a que se acoite, A tarde, doce como os perfumes Que andam no ar, Mandava à terra seus mil desejos De boa noite. . E a noite pelo vale, Com levezas carinhosas, Toda desvelo, quase amternal, Já começava pousando Sobre o fundo das quebradas Seus novelos de sombras silenciosas, Que apouco e pouco se iam desdobrando, Desapertando E avolumando, Como compridas meadas Desenroladas. . E nesse aproximar de sombra e luz, Ambas suaves, ambas esbatidas, Passa uma branda ternura Que envolve, que alicia, que seduz... Como se luz e sombra, assim inidas, Tão serenas e calmas, Espalhassem mais paz e mais doçura, Mais quietação sobre as almas. . Mansa e mansa, Como gotinha de água presistente, Que teima em fazer branda a pedra dura, Essa paz envolvente, Respiração da terra que descansa Em suave torpor, Entra, penetra, acaricia e espalha, A pouco e pouco, um singular frescor Na alma obscura de João da Malha. . E a noite cai. A luz,cada vez mais esmaecida, Cada vez mais distante, É como nota perdida Que se esvai, Toda em ecos diluída, Toda em suspiros de agonizante. E João da Malha, pleno de esperança, Sonha, enquanto descansa. . Uma voz doce como voz materna, Baixinha e segredante, Desprende-se de tudo o que o circunda, Sombra de voz, macia e terna, Que vem, sabe-se lá!... da luz... do instante... Do céu... da terra... do espaço... Sabe-se lá!... mas que de paz o inunda E o toma todo, como um longo abraço!...
. A princípio não sabe donde parte Esse fio de voz; Parece-lhe que vem de toda a parte E de parte nenhuma, Num sussurrar de estranhos fala-sós, Embuscados, ocultos pela bruma. . Depois, pouco a pouco, a voz ressalta Do silêncio, mais nítida, mais clara, Mais alta, Num segredar nenos incerto, E João da Malha então repara Que a voz lhe fala ali bem perto: . “Ouve, João da Malha, escuta um pouco: A noite desce por sobre nós; Que funda mágua a minha!... Não sabes quem te fala? Pobre louco!... Já não conheces a minha voz, A voz da tua amada Pedruguinha!... . Há meia hora que chegaste aqui, E, enquanto trabalhavas,ou fingias Que trabalhavas, distraído e lento, Fui procurando decifrar em ti O enigma que escondias No fundo do pensamento. . E decifrei-o, Mas como decifrá-lo me custou, Me encheu de mágua e de receio! Como cada raiz em mim cravada Se contraíu de espanto e se quedou Entristecida, pasmada!... . Pois quê, vais-nos deixar?!... Vais cortar esse laço que nos liga Há tantos anos?... Senhor!... Como se pode assim despedaçar Uma união tão funda e tão antiga, Sem tremer de pavor?!... . Há quantos anos, quantos, aqui vinhas Todos os dias, sem faltar nenhum, A rodear-me sempre de cuidados! E que cuidados tinhas, Não fosse faltar-me algum, Nos dias próprios, de antemão marcados!... . Eu já sabia: Se o sol em agosto me abrasava em fogo E me tomava a sede angustiante, A tua enxada surgia, Solícita,abrindo logo Caminho ao veio de água refrescante. . E quando, findo aquele esforço ingente De produzir mil frutos, me quedava Exausta, ao cabo da missão cumprida, A tua mão deligente Logo vinha e me estrumava, A dar-me força nova e nova vida. . Por isso me entregava toda inteira A cumprir meu destino, satisfeita De o ter tão alto e tão nobre, E sofria, e lutava de maneira Que no dia festivo da colheita, Nesse ao menos, tu fosses menos pobre. . Com que profundo orgulho, Com que estremecimentos silenciosos De um amor ignorado, Te via, triunfante, ao sol de Julho, Erguer as mãos e, nelas, gloriosas, Os frutos que só eu te havia dado!... . Era um encantamento, Uma hora de comoção, Para mim, a da ceifa!... Num momento, As foices, vibrando, Cortavam então Espigas que de há muito, sem cessar, Eu vinha criando Só para tas dar!... . Nem tu calculas a ternura imensa Com que eu alimentava, dia a dia, Cada humilde semente, Sem aspirar a outra recompensa, Além da alegria De te ver contente!... . Mas como o tempo foge!... Como tudo se extingue, se desfaz Por sob o azul dos céus!... É breve e fugitivo o dia de hoje! Como tudo é fugaz, Neste mundo de Deus!... . Tudo afinal acaba! De hoje em diante, Não mais procurarás tornar a ver-me, Para que eu te não lembre a minha dor; Eu ficarei esperando instante a instante, Passiva e enerme, O dia em que hei-de ser de outro senhor. . Como isto me apavora!... Como a separação que se aproxima Me faz estremecer!... Dentro de mim, cada raiz te chora, Cada semente obscura se lastima Da vida que vai ter!...” . Cala-se a voz da terra angustiada. Em volta, a noite, abrindo longamente Suas asas de sombra, Ficara absorta, parada, Suspensa dessa voz que, pungente, Até a própria escuridão assombra. . Atentas sentinelas Espalhadas nos céus silenciosos Como dourada poalha, As primeiras estrelas Parecem olhos a espreitar, ansiosos, O pobre João da Malha. . E João da Malha sente aquele olhar, Sente que tudo em roda Espera seja o que for, E parece esmagá-lo esse esperar Da terra toda Em redor!... . Sùbitamente, O atavismo de trinta gerações, Que da terra viverm dia a dia, Acorda nele o grande amor latente Que, como brasa a arder sob tições, Dentro dele existia. . “Tens razão, Pedruginha! Como pude eu alimentar a ideia De um dia te deixar?!... A tua vida está ligada à minha; Somos dois elos de uma cadeia, Não nos podemos separar”!... . E enquanto os astros sobem no horizonte, João da Malha, O heroi obscuro, o eterno lidador, Põe-se a caminho, levantando a fronte, Como no fim de uma batalha Um rei que fica vencedor. . . Coimbra, 31-12-1940.
Marcadores:
agricultura tradicional,
Mário Simões Dias,
poesia;,
rural,
Simões Dias
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
HEROI OBSCURO - por Mário Simões Dias
Humilde lidador do chão daninho
Que vais, sol a sol, enchada erguida,
Rasgar a terra, como a abrir caminho,
Como a levar a terra de vencida!...
. Em teu lidar constante eu advinho A força antiga,que julguei perdida, O esforço criador do pão,do vinho, Da alegria afinal da própria vida
. Humilde lidador, neto distante Desse outro herói, que, a golpes de montante, Fêz a nossa terra deste canto em flor!...
. Também tu, sob os sol, a tez queimada, Ganhas, a golpes da robusta enxada, O nome heroico de conquistador . M.Simões Dias
Marcadores:
Mário Simões Dias,
poesia;,
Simões Dias
domingo, 2 de novembro de 2008
Poesia de Osvaldo Kiluange Sousa
A Dor da Profecia e o Amor da Poesia
Eu sou como o profeta que clama no ermo
Os meus gritos de aflição não fazem audição para o sistema
Gritos de dor da imigração sentido sem valor da integração
Sou como o profeta que clama no ermo
As minhas profecias encheram a nação de esperança
Mas a seleção levou toda a atenção
E hoje só me restou a poesia para fazer a profecia
Enquanto rimo com a ajuda de todo o primo
Porque a lusofonia é o lema que não chegou ao bairro
Osvaldo Poeta PARA QUEM FALA DOS BAIRROS osvaldo-escritor@hotmail.com
Marcadores:
convicções,
entrekulturas,
Osvaldo Kiluange Sousa,
osvaldo-escritor,
participação,
poesia;
sábado, 1 de novembro de 2008
Poesia de Osvaldo Kiluange Sousa
Entrevista do (a) poetelas
- Sobre mim
-
Hoje a poesia clama o isolamento dos bairros
Bairros cidades de realojamento Transformados em guetos de sofrimentos Bairros onde habitam gentes de lusofonia Que gemem entre a escuridão a lentidão da política A poesia clama os gritos de dor e gemidos dos desprezados Bairros que nasceram com a imigração de gentes coloridas Gentes que vieram em busca da razão para viver Confiando na lusofonia prometida
Marcadores:
entrekulturas,
Osvaldo Kiluange Sousa,
participação,
poesia;
domingo, 19 de outubro de 2008
Osvaldo poeta, 'detective' e 'manager' da Quinta do Mocho
Osvaldo poeta, 'detective' e 'manager' da Quinta do Mocho
Basta pôr o pé na rua. Há sempre alguém, na Urbanização da Quinta do Mocho, em Sacavém, que chama por Osvaldo de Sousa. É a tia Bia a perguntar pela mãe dele, o Braima a convidá-lo para ir a Lisboa, as miúdas a combinar a hora do ensaio de dança. Desta vez foi a Daniela e está de sobrolho carregado porque é que, na longa lista de agradecimentos do seu primeiro livro, não se encontra o nome dela? "É só um rascunho. Falta ainda acrescentar muitas pessoas", gagueja ele. Acabado de encadernar, os poemas de Osvaldo correram de mão em mão. O bom seria ver a obra à venda nas livrarias, suspira Osvaldo. Mas, para já, os seus versos são um sucesso no bairro. A poesia é apenas um dos motivos para o angolano ser tão popular na Quinta do Mocho. Razões não faltam. É rapaz para conseguir uma sala para as Divas do Mocho ensaiarem uns passos de dança; fazer com que os professores percam o medo e visitem a urbanização; descobrir o paradeiro de familiares desaparecidos; pôr o bairro em peso a varrer o lixo das ruas.Osvaldo esclarece que fez tudo com a ajuda dos amigos, mas não foi por acaso que o elegeram presidente da Associação de Jovens de Intervenção Multicultural (AJIM). Ainda não tem e não sabe se algum dia terá local fixo para trabalhar. Isso não o impede de organizar, juntamente com os outros amigos, sessões de hip hop, de capoeira ou de apoio escolar aos alunos do bairro.
E, se na altura do aperto, toda a gente se lembra dele, é porque não é homem para desistir à primeira. Já fez um pouco de cada coisa - desde mediador cultural, na Escola Bartolomeu Dias, até serviços administrativos no Centro de Saúde de Moscavide. Mas a história de um miúdo que perdeu o rasto do pai é uma das muitas vitórias que gosta de lembrar. Sem família nem documentos, o santomense estaria condenado à clandestinidade. Osvaldo agarrou o caso, com a persistência de um detective. Com um nome escrito num pedaço de papel, percorreu os bairros das redondezas. Nem sinal do homem. Partiu rumo a outras terras Camarate, Catujal ou São João. Falou com meio mundo, mas a sorte não mudou. Apanhou boleia na estrada e chegou ao outro lado do rio. Na Charneca de Caparica conseguiu um número de telemóvel que correspondia ao nome que trazia escrito num papel no fundo do bolso. Fez uma tentativa e, do outro lado da linha, ouviu a voz do desaparecido. "O senhor até já estava legalizado e assim foi mais fácil regularizar a situação do seu filho", recorda.Haverá mais episódios para contar acerca deste miúdo que chegou à Quinta do Mocho há 15 anos para viver numa barraca com a mãe. Mas Osvaldo prefere concentrar as suas energias na missão seguinte. Um destes dias vai vestir a pele de manager e descobrir uma editora para gravar um CD com os artistas do bairro "Há tantos talentos escondidos que seria uma pena ficarem no anonimato", explica. Kery, o rapper, Indira, a dançarina-cantora e Braima, o rapaz que recuperou os ritmos tradicionais africanos esfregam as mãos de contente. Não é para menos. "Quando aquele rapaz põe uma ideia na cabeça, só descansa depois de conseguir o que quer", contam os amigos do bairro.
Marcadores:
Osvaldo Kiluange Sousa,
poesia;,
quinta-do-mocho
Subscrever:
Mensagens (Atom)
LIGAÇÔES
- AGRICULTURA FAMILIAR EM COVAS DO MONTE
- Agricultura Tradicional em Covas do Monte
- entrekulturas
- Google News
- http://agricabaz.blogspot.com/
- http://agricultura-familiar-tradicional.blogspot.com/
- http://bioterra.blogspot.com
- http://lhttp://www.belavista.pt/
- http://www.gentleteaching.com/
- http://www.iceweb.org/folhainformativa.html
- http://www.jea.angoladigital.net/projectos/semana_verde.htm
- http://www.thelookingscribe.blogspot.com/
- INCAPAZ
- INCAPAZ
- INCAPAZ
- INCAPAZ
- the looking scribe
- água pública
Etiquetas
- “Aids e amp; Mobility Young Social Entrepreneur 2010 (1)
- "Fernando Nobre" (1)
- "Gritos contra a indiferença" (11)
- "Gritos contra a indiferença" "Bertold Brecht" "A Infanticida Maria Farrar" (1)
- "Hospital de Dona Estefânia" (1)
- "juntas médicas" (5)
- "juntas médicas" baixas fraudulentas (1)
- "Sancho Tovar" (1)
- 16 de Novembro (1)
- 1930 (1)
- 25 de abril (1)
- 5% do Imposto Liquidado (1)
- 8 de março (1)
- a nossa terra quer (3)
- Acácio-Gouveia (1)
- acert (2)
- agricabaz (1)
- agricultura tradicional (7)
- Águeda (8)
- aldeia (3)
- ambiente (4)
- anciania (1)
- Andorinhão-preto (1)
- António Cardoso Ferreira (1)
- António Galrinho (1)
- Associativismo (14)
- Associativismo Informal (6)
- baixas fraudulentas (6)
- baixas fraudulentas "juntas médicas" (1)
- bela vista (2)
- biblioteca (1)
- caminhando juntos (1)
- carmo bica (1)
- Celeste Parada (1)
- censi (2)
- Centro ocial Infantil de Aguada de Baixo (1)
- chão sobral (1)
- coimbra (2)
- coisas do vizinho. blogs (1)
- coisas da cidade (1)
- comunidade prática (1)
- congresso (4)
- Consignação de 0 (1)
- convicções (4)
- Covas do Monte (14)
- crianças (2)
- criar raizes (4)
- crise (1)
- d'orfeu (1)
- deficiencia (1)
- deficiência visual (1)
- democracia participativa (15)
- desfecho (1)
- deus (1)
- Diário de Notícias (1)
- direitos (1)
- do longe fazer perto (1)
- Dynka Amorim (1)
- ecoformação (1)
- educação ambiental (3)
- Educar é amar (7)
- effetivness initiative (1)
- Encontro de Contadores (1)
- Encontros e Desencontros com Rui D'Espiney (1)
- entrekulturas (4)
- escolas encerradas (1)
- escolas rurais (5)
- etnográvica (1)
- eventos (4)
- Forum Social Mundial (1)
- forunzinho (1)
- Gazeta da Beira (2)
- GICAS (1)
- GRIPE A;blogosfera; mgfamiliar (1)
- histórias de gente comum (6)
- HOSPITAL PEDIÁTRICO (1)
- ICE (19)
- Instituto das comunidades educativas (31)
- interequipas (2)
- Intervenção Comunitária (8)
- investigação-acção (1)
- invisuais (1)
- joão pedro gonçalaves (1)
- Jorge Pedreira (1)
- JORGE-CASIMIRO (1)
- kuku (1)
- Lareiras e Sabores (1)
- Leonardo Boff (1)
- Lígia Calapez (3)
- Luiz Fernando Veríssimo (1)
- lusofonia; (1)
- m (1)
- mãe (1)
- MANIFESTA (2)
- manifestação (3)
- manuel tovar (1)
- Mário Simões Dias (8)
- McGee (2)
- metodologia (1)
- meu vale (1)
- miguel torga (1)
- Miguel Torres (1)
- Movimento de Águeda (6)
- movimento social (1)
- Nuno Lobo Antunes (1)
- O Elmo de Mambrino (1)
- oportunidade (1)
- oportunidades da crise (1)
- Osvaldo Kiluange Sousa (5)
- osvaldo-escritor (3)
- ouguela (1)
- participação (5)
- Patagónia (1)
- pensador (1)
- poesia (3)
- poesia; (6)
- poesia; Oscar Wilde; amigos; Loucos e Santos (1)
- poesia;eiras largas (1)
- Política de Educação (3)
- Portugal tradicional (1)
- presentismo (2)
- prioridades (1)
- professores (6)
- Quercus (1)
- quinta-do-mocho (2)
- rosa madeira (1)
- Rui d'Espiney (17)
- rural (1)
- saúde (4)
- Serviços de Saúde (3)
- SIC (3)
- Simões Dias (6)
- sinto muito (1)
- sócrates ditador (3)
- subir-a- serra (6)
- tondela (1)
- vinculação (1)
- violino (3)
- Vitor Andrade (14)
- vivemos juntos (1)
- workshop (3)
