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domingo, 15 de maio de 2016

1 RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO DO EI Rui d’Espiney Julho 2006


ÍNDICE
ÍNDICE ......................................................................................................................... 1
1. Introdução................................................................................................................... 2
1.1 A proposta................................................................................................................. 2
1.2 A negociação............................................................................................................. 3
2. A caminhada ............................................................................................................... 6
2.1. O que torna interessante a história de um grupo........................................................ 6
2.2 Os primeiros passos................................................................................................... 7
2.3. A emergência do EI como um espaço afectivo e informal de encontros. ................... 8
2.4 A estruturação de um sentido de identidade............................................................... 9
2.5 A transformação numa comunidade colaborativa de aprendentes............................. 10
2.6. Uma nova relação com o Movimento de Águeda.................................................... 10
2.7 E hoje? .................................................................................................................... 11
3. Metodologia.............................................................................................................. 12
3.1. Razões para o relevo que é dado a este capítulo...................................................... 12
3.2 Uma abordagem metodológica polémica?................................................................ 13
3.3 Razões de circunstância para uma opção metodológica............................................ 15
3.4 Alguns pressupostos e suas implicações .................................................................. 18
3.5 Metodologia Geral................................................................................................... 23
3.6 Passos metodológicos e metodologias específicas utilizadas. ................................... 25
As rodas........................................................................................................................ 27
As histórias de vida....................................................................................................... 28
As monografias ............................................................................................................. 29
A análise documental .................................................................................................... 29
As entrevistas................................................................................................................ 30
4. Consideração finais ................................................................................................... 32
5. Bibliografia ............................................................................................................... 34

1. Introdução

1.1 A proposta

Elaborado, na sua versão final, em Dezembro de 1998, o Projecto Transnacional E I foi
enviado pela Fundação Bernard van Leer em Janeiro de 1999 ao Movimento de Águeda,
através da Bela Vista-Centro de Educação Integrada, vulgo “Bela Vista”
Proposta de «estudo aprofundado e contextualizado (...) de programas reconhecidos por
serem efectivos», o projecto explicitava, de forma clara, os propósitos da pesquisa. Muito
em síntese:
• Genericamente, percepcionar como se alcança a efectividade tendo em vista,
nomeadamente, «a identificação de indicadores que ajudem, no futuro, os decisores a
compreenderem os requisitos de um programa que tenha um impacto positivo na vida das
crianças».
• Especificamente:
- identificar dimensões que levem à efectividade;
- partilhar resultados;
- desenvolver e testar uma metodologia que ajude a posteriores escolhas e opções.
Tomando-se por objecto uma dezena de programas, apoiados por distintos financiadores,
não pretendia o E I uma mera comparação de abordagens. Sim, a construção de um
pensamento estratégico sobre processos geradores de condições de efectividade nos
Programas de Desenvolvimento da Infância, procurando-se, nos vários projectos
seleccionados, dimensões de efectividade. Como explicitamente se dizia «não é nossa
intenção realizar um exercício que tão somente restabeleça a validade relativa de
diferentes abordagens, nem chegar a uma hierarquia na qual se identifiquem as
abordagens melhores ou as mais efectivas»

Dito de outra forma, não se queria a simples caracterização do diverso mas potenciar a
diversidade para uma melhor conceptualização do que é a efectividade e dos processos
que a ela podem conduzir. É nesta ordem de preocupações, de potenciação da
diversidade, que se insere a opção por projectos de doadores distintos e de regiões
geográficas tão diversas.
Devendo trazer, necessariamente, a qualificação, o aprofundamento das reflexões
estratégicas dos vários países envolvidos e contribuir, também necessariamente, para o
melhor conhecimento de cada um desses projectos, o que estava de facto em causa era a
produção e estruturação de conhecimento no domínio da efectividade (donde o facto de
alguns dos projectos seleccionados já terem terminado).
O propósito global da investigação seria atingido por recurso a equipas constituídas a
partir das equipas que conduziram ou conduziam os programas seleccionados, equipas
enquadradas metodológica e organicamente por uma coordenação da responsabilidade da
Fundação van Leer, - a entidade financiadora da investigação - a qual contaria com um
significativo leque de especialistas e consultores.
O pleno envolvimento das equipas em cada país pressupunha, naturalmente, que se
apropriassem das expectativas que subjazem à investigação, identificando-se com os seus
propósitos, condição indispensável ao desenvolvimento de uma pesquisa que teria de
decorrer em condições e tempos de grande autonomia.
Tal apropriação e, em particular, a possibilidade de identificação com os propósitos da
investigação, vai exigir um processo negocial que se admite prolongado.

1.2 A negociação

Tendo em vista, precisamente, esta negociação com o Movimento de Águeda, deslocou-se
a Portugal, em Abril 1999, Judith Evans, da Fundação van Leer. Acompanhava-a Ana
Santos, da Fundação Aga kan, a entidade que financiara Águeda e que apadrinhara a sua
selecção para o E I. Agostinho Mamade do CFP de Moçambique e Rui d’ Espiney do
ICE integravam, como convidados, a delegação.
Entremeadas por visitas a iniciativas em curso animados pelo Movimento de Águeda, a
apresentação do EI fez-se, ao longo de três dias, a um grupo de 8 pessoas, ligadas a essas
iniciativas e convidadas a partir do papel que foram tendo no desenvolvimento do
processo que decorria desde 1975, grupo onde se incluía Rosinha Madeira, coordenadora
e, até então, esteio do Movimento. Não instituído, o Movimento de Águeda não dispunha
de uma equipa estruturada e permanente em funcionamento, existindo de facto através de
uma teia de relações informais que alimentava os focos de intervenção a que ia dando
vida...e foi a essa teia que o projecto se propôs.
Deste facto resultava, desde logo, uma primeira consequência previsível. A negociação
com o grupo era necessariamente, também ou fundamentalmente, uma negociação com
cada um dos que a compunha: a adesão à proposta tenderia a operacionalizar-se através
da leitura individual que dela seria feita.
A visita às iniciativas que decorriam, a implicação que se viu no modo como cada um
vivia a profissão permitia antever uma segunda consequência: o EI tinha de levar mais
valias ao Movimento e à sua acção. Em Águeda, o EI não podia ser apenas um projecto
de investigação. Tinha também de ser uma possibilidade de acção.
Fruto destas duas ordens de consequências a adesão vai fazer-se (ou não) tendo em conta
a pertinência para o Movimento e o que cada um, individualmente, considerasse, (ou
não) útil no EI.
Considerando importante essa adesão dirá por exemplo uma das contactadas:
- «Pareceu-me importante porque as pessoas andavam muito dispersas e seria uma
forma de as juntar em torno da História.» (Isabel Cristina)
Em sentido inverso se pronuncia outra:
- «Nunca me motivou muito – eu estava em Aguada de Baixo, centrada nas crianças,
numa fase de desespero...Quando apareceu um projecto financiado pareceu-me que
seria uma coisa teórica, quando tanto precisávamos de financiamento para a
intervenção directa...» (Bela)
A maioria do grupo concorda em participar, mas não é se quer evidente que o faça em
conformidade com os propósitos do EI. Quem adere percebe e aceita que está subjacente
um estudo de pendor teórico, transnacional (não estritamente autocentrado) que pode
implicar um investimento exógeno à actividade quotidiana; mas, de facto, é a partir do
Movimento e do que para ele pode contribuir o EI, que a adesão se vai fazer1:
- a utilidade que poderia ter para a qualificação da intervenção, o reviver da prática
(Zé Tovar)
- a importância que poderia ter para a superação da dispersão em que o Movimento
estaria a cair (Isabel Cristina)
- o interesse que teria para o reforço de identidade, a recriação da história do
Movimento (Teresa Almeida)

A negociação tinha, para o EI, o objectivo de assegurar total respeito pelo «quadro
analítico e os instrumentos desenvolvidos» que se propunha. Tornou-se, no entanto, claro
para a delegação que havia que temperar esse objectivo com o imperativo, sentido, de
viabilizar a endogeneização e apropriação da proposta pelo Movimento.


Significou isto assumir a negociação como um processo democrático e participado de
valorização e satisfação de expectativas e interesses mútuos o que, por via de regra, recria
as propostas enriquecendo-as e alargando-as: ao se permitir uma reflexão contextualizada
e implicada – porque pertinente para o próprio processo de Águeda – viabilizou-se um
produto final que servindo o «quadro analítico» inicial possibilitou, em simultâneo, o seu
requestionamento epistemológico.
É, pelo menos, esta a noção que se tem da leitura que hoje se faz das dimensões de
efectividade presentes no Movimento de Águeda3.

2. A caminhada

2.1. O que torna interessante a história de um grupo

Olhada à distância, a história de um grupo de pessoas que procedeu a uma dada
investigação, não será relevante. A nossa curiosidade vai naturalmente para o Movimento
de Águeda em si mesmo, não para o grupo que o descreveu.
Conhecer a caminhada deste grupo concreto vai, no entanto, bem para além de uma mera
história de pessoas que trabalharam juntas, na precisa medida em que ela corresponde a
um processo de transformação de um conjunto de pessoas que se aproximam sem
verdadeiramente interdepender num colectivo solidário, colaborativo e aprendente.
Perceber os passos que a tal conduzem é, sem dúvida, um contributo para a compreensão
dos processos através dos quais se estruturam não apenas equipas coesas mas verdadeiras
Comunidades de Práticas onde, como diz Wenger (2002) se torna patente “o
empenhamento mútuo” – um empenhamento mediado pela prática social – “um
empreendimento conjunto” – com todos implicados na concretização de um objectivo
comum – e um “repertório partilhado” – em que cada um dá o que sabe.


Naturalmente estes processos passam, por momentos distintos uns dos outros. Na
descrição que de seguida fazemos de cada um desses momentos não houve a preocupação
de os situar no tempo. Pareceu-nos ser essa uma forma de melhor universalizar a
experiência que podemos retirar do processo vivido.

2.2 Os primeiros passos

Feita a proposta pela Fundação Bernard van Leer dá-se inicio a uma série de contactos e
negociações que conduzem à constituição formal da equipa chamada a desenvolver a
investigação. As pessoas que a integram aceitam fazê-lo também porque vêem nessa
proposta um reconhecimento do trabalho desenvolvido ao longo dos trinta anos de
existência do Movimento de Águeda. Sentem que o passado merece ser contado e
(re)validado.
Mas como se torna claro na primeira reunião realizada – 5 meses após a formulação da
proposta – a adesão de cada um é, no fundo, reticente. Todos se comprometem em
contribuir mas sente-se, no ar, que a maior parte dos elementos vê a investigação que se
propõe como uma sobreactividade que vai ou pode conflituar com o tempo, já de si
insuficiente, de que dispõem para atender aos problemas e necessidades dos projectos em
que estão implicados no quotidiano.
Compreendida como uma investigação clássica, a proposta de estudo aparece marcada
pela exterioridade, não pertinente para o aprofundamento das dinâmicas em curso ou para
a requalificação de cada um.
As questões que logo na primeira reunião se identificam como objectos possíveis e
passíveis de estudo – história do movimento, momentos críticos, conceitos operados,
efeitos, etc.. – suscitam sem dúvida a curiosidade e o interesse mas não ainda de molde a
induzir o empenhamento e a participação para além do próprio momento da reunião.Ao
longo destes primeiros passos – que se prolongam por alguns meses – não há grupo e
muito menos equipa. Há sim, e tão somente, pessoas que concordam em viabilizar uma
proposta de que se não apropriaram e em que vêem um interesse, apesar de tudo, relativo.

2.3. A emergência do EI como um espaço afectivo e informal de encontros.

Em torno das questões que se propunham para reflexão foi-se criando nas reuniões que se
sucederam, um clima de partilha em que progressivamente se foram implicando os
participantes. As conversas generalizaram-se e com frequência começou a acontecer,
ocorrerem, em simultâneo, reflexões cruzadas envolvendo, em espontaneidade, todos os
presentes.
Uma das dimensões propostas para estudo, em particular, desempenhou um papel
determinante no desbloquear das relações entre as pessoas: concretamente o cadastro dos
afectos a que se procedeu e que consistiu na identificação e descrição dos momentos mais
significativos da relação de cada um com o Movimento, enquanto factor de integração ou
afastamento. Esta viagem pelos afectos teve, de facto, por efeito subjectivar as relações
no interior do grupo, contribuindo para as informalizar ainda mais4, para a prevalência da
importância do “estar”.
A investigação permanecia exterior e entre as reuniões as pessoas tendiam a dispersar-se
e a fechar-se sobre si mesmas...Mas o EI, as suas reuniões, começavam, de facto, a
emergir como um espaço de trocas catalizador de interacções e de socialização de
afectos. Como dirá alguém da equipa, o EI passara a ser “um novo espaço informal de
reencontro”.

2.4 A estruturação de um sentido de identidade

Três factos vão, entretanto, acontecer favorecendo uma nova relação do grupo consigo
próprio.
Em primeiro lugar, a introdução, enquanto dimensão de análise, do estudo das, pelo
grupo denominadas, externalidades, isto é das influencias externas sofridas pelo
Movimento ao longo dos seus trinta anos de vida. Em intenção a esse estudo,
intervenientes à data deste afastados, mas que tiveram um impacto evidente no seu
desenvolvimento, são chamados à reflexão. O grupo é através deles questionado de fora
para dentro, o que o leva, ainda que sem disso se aperceber, por um lado a descentrar a
reflexão – a tentar ler o Movimento a partir de fora – e por outro, precisamente por isso
mesmo, a situar-se no Movimento, a identificar-se com ele.
Em segundo lugar, o manancial de informação entretanto recolhido – histórias de vida,
recortes de imprensa, entrevistas, notas de campo, etc.. – e em que literalmente o grupo se
sente afundado, perdido quanto ao que deve fazer dele. A necessidade de um ponto de
situação que segurizasse quanto ao caminho que vem seguindo leva a uma primeira
globalização e sistematização do conhecimento, reunido sob a forma de dois textos,
explorados numa oficina alargada, que serviram para dar ao grupo uma primeira
percepção do que havia sido o Movimento (do seu âmbito e pertinência).
Em terceiro lugar, e por força das “orientações” que lhe chegam da Fundação, vê-se o
grupo obrigado a debruçar-se sobre a Metodologia que vem adoptando tomando então
consciência de que havia sido protagonista de uma investigação-acção, de um processo
onde, o seu questionamento intervém para dar sentido ao que cada um é e faz.
Estes três factos, conjugadamente, ajudam o grupo a sentir-se como grupo, onde cada um
é sujeito de uma processo que já é colectivo e onde a subjectividade e a afectividade
continuam a intervir mas agora alimentadas por um sentimento de pertença e de
identidade.

2.5 A transformação numa comunidade colaborativa de aprendentes

A este sentimento de identidade começa, naturalmente, a corresponder uma nova relação
de cada um com a produção de conhecimento. Como dirá alguém dentro da equipa, o EI
torna-se em Águeda “uma produção de conhecimento na primeira pessoa”. Com
naturalidade, os membros do grupo chamam a si, organizados em pequenas equipas, a
produção de textos orientados para a releitura dos dados reunidos, textos que o grupo
debate, colectivamente, num processo que se revela autoformativo.
Imperceptivelmente já não é só o passado do Movimento que é objecto da análise da
reflexão do grupo. Também o seu presente: com frequência a investigação é interrompida
para, em conjunto, se produzirem estratégias de superação de uma crise ou dificuldade
que se abate sobre o Movimento.
Pelo conhecimento que produz individual e colectivamente quer sobre a investigação que
realiza quer sobre a realidade que anima ou a que está ligado bem assim como pela forma
como coopera na construção desse conhecimento e/ou como procura desocultar o que
desconhece, o grupo não é já e apenas um grupo. Sim, uma comunidade de práticas, um
colectivo que aprende colaborando.

2.6. Uma nova relação com o Movimento de Águeda

Já nos últimos meses de existência formal do EI, torna-se evidente um novo salto
qualitativo vivido pelo grupo.
Numa reunião de dois dias realizada em regime de internato numa localidade de Oliveira
do Hospital faz-se um balanço final da investigação realizada. Significativamente uma
forte tónica é posta na explicitação do ideário do Movimento de Águeda, no
levantamento dos valores que lhe estão subjacentes e que, no fundo, constituem a sua
própria razão de ser.
Mais do que o conhecimento do passado, o que emerge é, agora, a necessidade de
perceber um estar no presente e o comprometimento num processo que se quer ler a partir
do futuro. Os desafios que fizeram o passado do Movimento – a exclusão, a cidadania ....
– continuam vivos mas já não bastam. Explicitamente se procuram e formulam novos
desafios mobilizadores. Não por acaso nessa mesma reunião se esboçam perspectivas de
novos projectos, de busca de recursos que permitam prosseguir o Movimento.
Mais do que uma comunidade de aprendentes, o grupo revela-se um colectivo de
empreendedores implicado no aprofundamento de um Movimento com que se identifica.

2.7 E hoje?

Formalmente o EI chegou ao seu termo em 2003. Por razões profissionais, alguns
membros da equipa que o desenvolviam vêem-se afastados do Movimento, chamados a
tarefas que os impediam de participar. Uma parte, no entanto, contribuiu com outros para
dar corpo e vida a novos espaços de reflexão e aprendizagem que chamaram a si a
orientação e acompanhamento de projectos e dinâmicas no concelhos – agora sem o
pretexto de uma investigação, pela mera necessidade de continuar a pensar e agir juntos.

3. Metodologia

3.1. Razões para o relevo que é dado a este capítulo

Para quem viveu o seu processo, o EI foi sem dúvida importante. Não por acaso muitos
dos que nele participaram continuaram, durante alguns meses, a chamar EI aos espaços
de reflexão que lhe sucederam tendo em vista a animação e orientação do projecto que
vinham aprofundar ou simplesmente continuar a dinâmica e os pressupostos do
Movimento de Águeda.
Para este, para a vasta teia de pessoas que lhe deram vida ao longo dos seus 30 anos de
existência, o que há de verdadeiramente relevante não é o EI mas a “história” que ele
desocultou e que se conta na 2ª parte deste relatório. É essa história que fica e que pode
suscitar o interesse de quem a ela aceder.
Há, no entanto, dois aspectos do próprio EI de que se podem, sem dúvida, retirar
ensinamentos úteis e abrangentes de alguma forma dessimináveis, possíveis, pois, de
induzir um interesse generalizável.
Desde logo, e como se sublinha mais atrás, ter correspondido a um processo de
transformação de um conjunto de pessoas numa comunidade de práticas, cada vez mais
vistas, hoje em dia, como uma nova forma de gerir, democraticamente, o poder do saber.
Em segundo lugar, o facto de lhe estar subjacente uma metodologia que em grande
medida explica não apenas o processo vivido pelo grupo que conduziu a investigação,
como a forma assumida pelo conhecimento produzido. Não tendo consistido numa
abordagem clássica, assumindo-se na verdade como uma metodologia construída para e
com a situação, compreender-se-à que sobre ela nos alonguemos.

3.2 Uma abordagem metodológica polémica?

A rejeição dos quadros teóricos positivistas que informou e enformou certa a investigação
no última metade do século passado e que corresponde, em muitos casos, a um esforço de
ruptura epistemológica ao nível do conhecimento social legitimado, esteve marcada –
como é normal nos processos de afirmação do que é, ou pretende ser, novo - por uma
forte preocupação de validação científica, validação que se procurava (e continua a
procurar) pelo recurso a metodologias instituídas e reconhecidas e métodos e técnicas “de
rigor”... Curiosamente, ou talvez contraditoriamente, metodologias de raiz positivista que
serviram de base ao estatuto de cientificidade reivindicado pelas Ciências Sociais e
Humanas e de que beneficiavam, até então, as Ciências Físicas e Matemáticas.
Barbalet (2001), por exemplo, ao contrapor à racionalidade e ao positivismo o papel das
emoções, não só na acção como na sua explicação, não deixa de começar por tornar claro
a obrigatoriedade de o fazer demonstrando-o com cientificidade.
A mesma perspectiva metodológica, a mesma reificação do pensamento científico (do
Método) que esteve na base do conhecimento social produzido pelos positivistas aparece,
assim, a determinar a validação de um conhecimento que se quer em ruptura com o
conhecimento positivista.
É esta (digamos) contradição que, no entender de Damásio (1995), acaba por surgir como
um constrangimento à produção de novas categorizações sociais e que leva, por exemplo,
Edgar Morin (1998) a defender que se “impõe uma reforma do pensamento
sociológico”(p.10): Sublinhando a importância de contemplar, nas análises, factores
como os acasos, as instabilidades ou as bifurcações, de reequacionar a relação parte/todo
ou a relação actor/autor, sustenta Morin a pertinência e a validade do conhecimento não
científico afirmando que, face ao carácter “parcial e inacabado” da cientificidade
sociológica, pode e deve o investigador social recorrer a outras formas de produção (de
que considera um exemplo, os ensaios).
Vem esta reflexão a propósito da perspectiva metodológica seguida pelo E. I. em Águeda.
A importância do método e da metodologia para a legitimação do conhecimento leva a
que, por via de regra, toda a investigação tenha como ponto de partida e condição, a
explicitação prévia da metodologia que se adopta, dos instrumentos que se propõe usar e
das estratégias que a viabilizam.
O caminho seguido pelo E.I. de Águeda rompe, pelo menos parcialmente, com esta
prática: foi em Dezembro de 1999 que se deu o início à presente investigação e só em
Julho de 2002 – na Oficina realizada na Aldeia das Dez – se veio a explicitar e
sistematizar a opção metodológica seguida.
Defendeu-se, desde o primeiro momento, a necessidade de realizar pesquisas “objectivas”
por recurso a métodos (técnicas) passíveis de emprestar rigor às conclusões. Mas toda a
perspectivação do trabalho, que também desde o primeiro momento se fez, tornou claro
que se assumia igualmente como metodologia de pesquisa a construção colectiva de uma
história crítica – ou talvez melhor de um ensaio.
Como é evidente, a defesa da complementaridade e pertinência desta dupla caminhada
corresponde a uma opção metodológica que faz da metodologia, não a condição da
validade e pertinência do conhecimento, mas uma explicitação, não necessariamente
prévia, do processo de produção de conhecimento.
A pesquisa aparece, nestas condições, mais centrada no investigador (singular ou
colectivo) e não no método, do que resulta, é certo, um risco de erro acrescido – na
medida em que tanto lhe cabe “utilizar dados fiáveis como desenvolver um pensamento
pessoal” (Morin, 1998, p. 14) - mas também a riqueza criativa que esse mesmo risco
comporta.
Introduzir, como fizemos, a emoção como objecto, dimensão e “sujeito” da análise e
fazê-lo enquanto contributo pertinente e necessário para a descoberta e explicitação do
processo social que foi, e é, o Movimento de Águeda, equivale a trazer para a
investigação a subjectividade o que, necessariamente, contraria a preocupação de
objectividade e exterioridade que se deseja numa investigação clássica, enquanto garante
de rigor.
Fizemo-lo, e ao fazê-lo, assumimos, de facto, uma opção metodológica, à semelhança,
por exemplo, do que fez Barbalet quando escreve “que as emoções são a base da razão e
que uma rejeição da emoção, em vez de beneficiar a racionalidade, deixa-a sem sentido
ou direcção” (p.173)
Em última análise corresponde esta opção a perfilhar, com Edgar Morin, que o
conhecimento sociológico – como é, sem dúvida, o que se queria produzir sobre o
Movimento de Águeda – “não é apenas conhecimento científico stritu sensu; ele integra
outros modos cognitivos” (p.14). .

3.3 Razões de circunstância para uma opção metodológica

A opção de não assumir a metodologia como ponto de partida da investigação teve,
também, a ver com razões de circunstância e de natureza estratégica.
Desde logo, e em primeiro lugar, a preocupação de garantir que a gestão da
investigação e não apenas a sua viabilização, coubesse na íntegra à equipa que se
constituiu.
As exigências de rigor científico que a investigação pressupunha – e que os conteúdos
das Oficinas organizadas pela Fundação van Leer vinham sublinhar – foram, logo no
primeiro momento, percebidos como uma fonte de dificuldade e insegurança. Afirmandose
não preparados para as atender, “chegaram a pedir-se aulas de metodologia”, como
lembra Maria José Tovar, na Aldeia das Dez.

Nestas condições, organizar a pesquisa a partir de uma qualquer proposta de metodologia
que se explicitasse era organizar e programar a investigação a partir de fora da equipa
chamada para a realizar. Surgindo como uma competência que a equipa não possuía, ou
dizia não possuir, a metodologia que se adoptasse e os instrumentos que a servissem
resultariam não de uma construção colectiva, mas de um quadro analítico pré-definido
que enquadraria, desde a primeira hora, o sentido da reflexão da equipa, levando esta a
tornar-se um mero instrumento de uma abordagem exógena.
Não por acaso – fruto desta representação sobre a sua relação com a investigação – uma
das primeiras proposta da equipa previa a contratação de um conjunto de especialistas
externos chamados a acompanhar a investigação, proposta que significava, de facto, uma
divisão social entre investigadores e operadores. Em nenhuma circunstância facilitaria a
viabilização do que veio a acontecer – a transformação da equipa em produtora, não
apenas do conhecimento, como do processo que a ele conduziu.
Em segundo lugar, a pertinência que se pressentiu de associar ao processo de
estruturação da investigação e da sua metodologia, a construção da equipa.
O que se formara para desenvolver o E. I. era um grupo; não uma equipa, já para não
falarmos de uma Comunidade de Prática. Um grupo que, como dizemos noutros lugares,
fazia da paridade um estar, da informalidade um modo de funcionamento e da
afectividade uma forma de compreender.
Uma equipa existe quando há uma consciência colectiva que em comum se explicita, e
um pensamento estratégico que interactivamente se operacionaliza. O domínio de um
quadro metodológico – e da capacidade que lhe está subjacente de organizar, seleccionar
e sistematizar a reflexão - não precede a constituição da equipa na precisa medida em que
uma metodologia apropriada é uma forma de consciência explicitada.
Face às características do grupo que éramos, a própria ideia de investigação – encarada
como um exercício de racionalidade e de objectividade – surgia como um ruído e um
obstáculo. Já levara alguns dos dinamizadores do Movimento de Águeda a não aderir ao
E I. Levaria, decerto, muitos dos que ficaram a continuar a relacionar-se com o EI a partir
de fora de si mesmos e a não potenciar, nele, as sinergias geradas pela sua forma de estar.
Como diz Barbier (1997), “o sentimento é uma forma subtil de consciência desperta”.
Para que o método e, de uma forma geral, as questões metodológicas surgissem como
facilitadoras e não como obstáculos à socialização e intencionalização dos sentimentos,
tornava-se de facto necessário que a metodologia – o modo de fazer, em investigação – se
alimentasse também (resultasse também) do feixe de sentimentos que se tinha naquele
grupo. Uma imposição precoce do método, de critérios de racionalidade na projecção da
investigação, inviabilizaria a potenciação desta mais valia considerando-se, com Barbier
que “entrar no sentimento é aceitar estar receptivo ao mundo que nos fala sempre
diferentemente”
Finalmente, e em terceiro lugar, a necessidade de perceber como situar o E. I. de
Águeda, e a especificidade que nele se prefigurava, nos requisitos metodológicos que nos
vinham do E. I. global.
A proposta de investigação do E.I. transnacional não era fechada, apontando para opções
metodológicas que abriam caminho a percursos próprios e específicos. Sobrelevava-se,
nomeadamente, a ideia de um estudo qualitativo e o recurso à Observação Participante o
que, como se reconhecerá, se não contrapõe, por exemplo, à adopção da
investigação/acção como metodologia geral nem tão pouco, sequer, à relação com a
cientificidade que aqui se vem defendendo.
Propunha-se explicitamente a necessidade de um quadro analítico mas remetia-se o
processo da sua construção para as equipas.
A tónica na manipulação de métodos e técnicas que informou as oficinas organizadas
pelo E. I. Transnacional, as preocupações que pareciam ressaltar do tipo de bibliografia
fornecida levavam, no entanto, a sugerir um pendor para uma investigação de tipo
fundamental que não podia deixar de ser tido em conta
Não sendo aceitável uma justaposição eclética de abordagens, impunha-se construir uma
opção abrangente que respondesse à preocupação com o rigor e a cientificidade que se
nos pedia, continuando, simultaneamente, a contemplar a especificidade do processo que
se esboçava e perspectivava em Águeda.
Numa síntese, a explicitação da metodologia exigia um tempo de negociação com o
projecto como um todo. Qualquer explicitação metodológica que se fizesse à partida
seria, nestas condições, precoce e contraproducente.

3.4 Alguns pressupostos e suas implicações

A perspectiva metodológica que marcou e orientou as opções feitas explica-se,
naturalmente, por vários pressupostos/preocupações que induziram o desenvolvimento do
projecto E.I.
Em primeiro lugar, e antes de mais, a preocupação havida em fazer do E. I. um processo
endógeno ao Movimento de Águeda.
O E.I surgiu – já o dissemos – do exterior, como uma proposta de trabalho que não
resultava do quotidiano do Movimento de Águeda, “impondo” líderes externos e a
possibilidade de especialistas vindos de fora.
A adesão ao E.I fez-se, no entanto, como tudo em Águeda: a partir de dentro, do “maisprazer”
e do “mais-ser” que o Projecto podia representar para cada um e para o
Movimento5


Como recorda Fátima Cerveira6, na Aldeia das Dez, até mesmo a aceitação do líder
resultou “por termos empatizado com o Rui” isto é, por que este não vinha pôr em causa,
não vinha perturbar este estar a partir de dentro e dos afectos de cada um.
Mais do que opção metodológica, a endogeneização do E.I, surge, de facto, neste
contexto, como um imperativo estratégico cuja concretização, essa sim, pressupôs um
conjunto de opções metodológicas que permitiram fazer do E. I., para usar a síntese de
Maria José Tovar, “o criar de um ‘fora’, para nós nos reencontrarmos no dentro”.
São quatro as opções que me parecem pertinente destacar.
A primeira teve a ver com o assumir de cada um como fonte de conhecimento do próprio
Movimento. Dito de outra forma, a investigação orientou-se para a descoberta do
Movimento que havia em cada um. Como sublinha Luísa Coelho7, “descobrimos fazendo
uma introspecção dos nossos saberes e do que representámos”.
A segunda, teve a ver com o acertar do ritmo do E. I. pelo ritmo de crescimento do grupo.
Como também refere Luísa Coelho “Foi-nos dado tempo para fazermos uma caminhada.”
A terceira, teve a ver com a preocupação de organizar o processo de pesquisa e de
explicitação do conhecimento a partir das características do próprio grupo. Como lembra
Maria José Tovar, na Aldeia das Dez, «quase que parecia que a metodologia tinha sido
feita exactamente para nós», ilusão que se deve ao facto de ter sido dado «espaço e tempo
para emergir a metodologia que nos era mais própria».
A quarta, e última, teve a ver com a prática de vaivém que se seguiu entre a descoberta
que se fazia do Movimento e a releitura que o grupo fazia dessa descoberta: “o retorno
das pequenas coisas” de que fala Luísa Coelho.


Em segundo lugar, o carácter vincadamente participado que assumiu o desenvolvimento
do E. I.
A ideia de participação está marcada por muitas ambiguidades, a mais frequente das
quais tem directamente a ver com a ideia de que há participação quando uma proposta
que se quer concretizar conta com quem ajude, com quem “dê uma mão”. Não por acaso
muitas das técnicas de investigação participada acabam, na verdade, por transformar cada
participante na peça de um puzzle cujo desenho e o todo permanece nas mãos de quem o
concebeu.
Águeda aparecia com uma história diferente. Não era esta nem a leitura nem a prática da
participação do Movimento de Águeda.
A ideia chave que definia as relações entre as pessoas – a de “aprender a andar com os
sapatos do outro” – traduzia, com efeito, um conceito de participação que implicava não
apenas aceitar ou procurar o contributo do outro mas promover o respeito pela
pertinência do contributo eventualmente diferente do outro.
No espaço EI, a participação aparece, assim, quase diríamos espontaneamente, a partir do
estar quotidiano de cada um.
Em clima de liberdade e simetria, criando-se amiúde situações de pequeno grupo (quando
o estar em grande grupo favorecia os silêncios), implicando todos e cada um em trabalho
de autoria, possibilitou-se uma constante participação na reflexão:
● Os registos gravados das conversas mostram à evidência que ninguém, nem
uma só vez, esteve calado;
● Nos vários textos de percurso que se reuniram podem ver-se os nomes de quase
todos os membros da equipa E. I.
Mas não foi só ao nível do grupo (da equipa do E. I.) que se procurou a participação.
Fazendo eco deste estar que faz da opinião do outro, do sentir do outro, a condição do
estar e do sentir de cada um, toda a investigação foi programada tendo em vista e
chamando a ela o conjunto do Movimento...8
Com efeito, identificadas as dimensões de análise no espaço E. I., foram elas levadas à
análise crítica de quantos aceitaram participar numa oficina organizada para o efeito.
Também em oficinas alargadas tiveram lugar as descobertas, o “remexer” das
impressões, os acordos e desacordos que vieram a permitir o recontar da história de
Águeda.
Mais do que uma técnica de pesquisa, a participação foi, de facto, potenciada como
condição de funcionamento e processo de construção de uma memória e de uma
consciência colectivas.
Em terceiro lugar, a continuada aposta na informalidade.
A informalidade – já o dissemos – sempre foi umas das características centrais do
Movimento de Águeda.
Dando origem a diferentes espaços instituídos e/ou formais (Bela Vista, Contador de
Sonhos, etc.) o Movimento não tem identidade jurídica. Intervindo em serviços, fê-lo
criando neles bolsas de informalidade. Revendo-se num ideário, não se reuniu em torno
de uma qualquer “Declaração de Princípios” ou de um Manifesto. Organizando-se para
intervir fê-lo de forma fluída, em teia, agrupando-se em função das iniciativas,
implicando quem podia e queria. O próprio nome em que hoje se reconhece – Movimento
de Águeda – era, para muitos dos que nele participaram e participam, desconhecido.
Esta informalidade dava espaço a uma espontaneidade persistente que, por efeito de
boomerang, a alimentava.

Surgindo como um espaço formal – com identidade, funções e projecto definidos – o E. I.
assumiu, no entanto, desde a primeira hora, enquanto metodologia e princípio
organizativo, a aposta na informalidade.
Desde logo, ao nível da sua própria composição.
Propôs-se que o integrassem oito elementos que, à partida, se reconhecia terem tido (e
continuam a ter) um papel relevante na história do Movimento. Mas aceitou-se, como
pressuposto, e desde cedo se adoptou como prática, um funcionamento aberto,
trabalhando-se com quem aparecia, chamando-se às reuniões quem mostrasse interesse.
Também ao nível da sua organização interna
O princípio da geometria variável orientou explicitamente a prática organizativa do E.I.:
os vários grupos de trabalho que se constituíram integravam quem se disponibilizasse,
quem mais facilmente se podia encontrar – às vezes tão somente por razões de vizinhança
- incluindo, com frequência, quem não fazia regularmente parte do E. I.
Finalmente, ao nível do próprio funcionamento.
Na verdade, mais do que a informalidade (ou tanto como a informalidade), o que
caracterizou o modo de reflectir no E. I. foi a espontaneidade. Sistematicamente
induzidas pela vivência e pelo sentir de cada um, as reflexões estruturaram-se a partir de
emoções, de impressões, de experiências que traziam para o grupo não apenas o
pensamento como o estar, o à vontade de cada um. Como bem se tornou claro na Oficina
da Aldeia das Dez, a simetria porque se pautou o funcionamento do E. I. (como do
Movimento), não “normatizou”. Pelo contrário, alimentou-se da identidade e da forma de
ser de quem “entrava na roda”, precisamente porque procurou ser, e foi, uma simetria
entre pessoas que interagiam informalmente...ainda que por mediação de uma
investigação.

3.5 Metodologia Geral

Determinantes para este modo como se desenvolveu o E. I. e o impacto que tiveram na
requalificação do Movimento9 estas várias opções metodológicas e epistemológicas
inserem-se, de facto, numa opção mais geral, também de natureza metodológica, feita,
ainda que implicitamente, por Águeda. A saber, a de assumir o E. I. quer como um
projecto de investigação/acção quer como processo de desenvolvimento ecoformativo.
Algumas ideias chave explicitadas na Oficina da Aldeia das Dez traduzem bem o que foi
a caminhada no domínio da investigação:
- «Mais do que recriar o conhecimento, nós fomos recriando a nossa relação com
o conhecimento» isto é, «no processo de produção de conhecimento
produziram-se produtores de conhecimento.»;
- «Foi uma descoberta dos saberes implícitos que tínhamos e
operacionalizávamos»;
- «As coisas foram surgindo conforme nós fomos crescendo – individualmente e
em grupo»;
- «Foi aquela sensação: “Eu faço isso?”»;
- «O conhecimento passou a pertencer-nos»;
- «Há coisas que fizemos numa altura que não tínhamos sabido fazer antes»
Que reflectem estas ideias? Tão simplesmente a operacionalização de uma metodologia
de investigação/acção. O que elas nos dizem, - o actor transformado em autor; a
transferência do Saber para o Conhecimento; a criação de um investigador colectivo; a
afirmação do poder de agir pela criação do poder de explicar e comunicar; a valorização
do que se faz pela consciência do que se questiona; a não divisão social de papéis num
processo de investigação - são, de acordo com Bataille (1981) e Bouchard (1991), as
bases estruturantes e explicativas de uma metodologia de investigação/acção.


Como escreve, a propósito, Natércia Pacheco, «o processo de conhecimento é (numa
metodologia de investigação) orientado para a emancipação dos investigadores e dos
outros intervenientes em torno de um objecto comum, construído em função de uma inter
relação que se quer simétrica», simetria que se constrói e vive «tanto na problematização,
pesquisa e gestão de resultados como nas práticas emergentes.» (p. 9)
Foi isto que se procurou fazer no E. I.
Associada a esta metodologia ou, em grande medida por ela viabilizada, emerge ou
evidencia-se um processo ecoformativo.
Vivido, embora, na perspectiva da compreensão da realidade e do processo social a que
corresponde o Movimento de Águeda, a reflexão orientou-se para a mudança das práticas
e para a produção de um pensamento estratégico que redefiniu a acção assegurando, em
simultâneo, o crescimento, a mudança de quem reflectia. Na prática, deu-se corpo a um
processo em que o “eu”, o “outro”, a “coisa” (os projectos, os contextos) interagiram,
progressivamente definidos por uma possibilidade de futuro cuja antevisão foi formando,
mudando, recriando, não só cada um e cada coisa, como a reflexão e o modo de
reflectir.10
Com efeito:
• Cresceram as pessoas: «Houve pessoas que não cresceram connosco e foram
ficando para trás. O próprio Rui se não se tivesse deixado transformar,
provavelmente também teria ficado na primeira fase do E. I.» (Maria José Tovar)
• Releu-se a realidade: “Uma pessoa não tinha a noção de que as coisas (…) não
acontecem em Águeda só porque acontecem em Águeda” (Fátima Cerveira)


• Recriou-se a relação: “Acho que depois de termos passado por este processo,
quando estivermos individualmente em qualquer sítio, é impossível não ter uma
atitude diferente” (Teresa Almeida)
É este ciclo, feito de interdependências, de interacções que trazem qualidades e
qualificações, bem à imagem dos ecossistemas, que nos permite falar em ecoformação.
(Pineau, 1991; Espiney, 1997, Diez, 2001; Nóvoa, 2002)

3.6 Passos metodológicos e metodologias específicas utilizadas.

O breve apanhado feito sobre a caminhada realizada pelo grupo que assumiu o EI
informa-nos sobre os momentos (as fases) claramente distintos (distintas) por que passou
o processo da sua transformação em Comunidade de Prática. Num certo sentido podemos
fazer corresponder a passagem a cada um desses momentos – dessas fases – uma
sucessão de passos metodológicos que foram dados, passos que tiveram como
contrapartida metodologias específicas.

Num primeiro momento tratou-se tão somente de induzir a adesão de um conjunto de
pessoas a um projecto de investigação que se oferecia.
Mostrar a pertinência do estudo que se desejava, à luz dos interesses dos indivíduos
chamados a participar, implicava que a nível metodológico prevalecesse a tónica na
negociação: os próprios requisitos do projecto tiveram de ser aferidos às condições da sua
aceitabilidade considerando-se, nomeadamente, a realidade do contexto, o estar das
pessoas, a natureza das suas relações. A adesão das pessoas dependeu da capacidade que
a proposta teve de se tornar sedutora, o que necessariamente passou não tanto pela
explicitação dos objectivos da investigação mas pela cativação das pessoas ao propósito
de produzirem descobertas que de algum modo entrosassem com as suas curiosidades, ou
melhor “com os impulsos internos” de que fala Chombart de Lawve (1993).

Num segundo momento esteve fundamentalmente em causa criar condições à livre
expressão de cada um. Toda a atenção foi dada às metodologias participativas por recurso
nomeadamente à criação de condições para os diálogos espontâneos e cruzados, às
conversas em roda e um estar informal. Não se fazendo uso de técnicas participativas –
que como se disse tendem, no fundo, a fazer dos implicados meros consumidores –
promoveu-se a participação por mediação dos afectos, das subjectividades e da simetria
das relações.
Num terceiro momento, procurou-se favorecer a identidade do grupo o que procurou
fazer-se pela descentração da reflexão e a interacção com outros sujeitos. Como lembra
Rucheinsky (1995), apoiando-se nomeadamente em Hegel, a identidade estrutura-se
também na interacção com os outros, ou como escreveu “conforma-se na contraposição a
factores externos” (p.43). A chamada à reflexão de elementos que haviam estado
implicados no Movimento de Águeda – alguns com um papel então determinante –
confrontou o grupo com as suas próprias crenças ainda que por vezes explicitada por
outros.
Num quarto momento assistiu-se à transformação do grupo numa comunidade
aprendente, implicada e colaborativa por força de 2 metodologias de que o grupo se
apropriou concretamente:
1º A abordagem etnográfica: investiga-se a realidade tomando “parte integrante da rede
de relações que (se) pretende investigar” (Silva, p.35); ou seja cada um é “parte e parcela
do todo que pretende investigar” As entrevistas, as auscultações cruzam-se com
autoquestionamentos que subjectivam a relação com o conhecimento.
2º A produção colectiva de conhecimento: a passagem de actores a autores, traduzida na
produção de textos de reflexão sobre a realidade que se investiga, faz-se por recurso a
equipas que cooperam pensando juntos.

Entrecruzadamente estas 2 metodologias explicam o salto qualitativo vivido pelo grupo
na última fase do EI. A interacção com a realidade e o trabalho de autoria desenvolvido
induzem uma nova relação do grupo como o próprio Movimento de Águeda – passando a
intervir em nome do ideário de que se apropriaram e na perspectiva da produção de
soluções, de novos futuros possíveis para esse Movimento.

3.7 Método e técnicas

A opção metodológica que fizemos para a investigação desenvolvida, nomeadamente, a
que passou pela assumpção da subjectividade e das emoções e a ruptura com perspectivas
positivitas não significa uma subvalorização do método. Ao longo de todo o processo EI
e atravessando cada um dos seus momentos recorreu-se a métodos e técnicas que
funcionaram ou como operadores desses processos ou como instrumentos
complementares de diagnósticos e análise da realidade.
Foram fundamentalmente 5 as técnicas e métodos utilizados: as Rodas, as Histórias de
Vida, as Monografias e Textos de Percurso, a Análise Documental e as Entrevistas.

As rodas
Constituem estas, formas de organização da reflexão – sendo por isso, talvez mais uma
metodologia do que uma técnica ou um método – em que as pessoas são postas em
círculo, confrontadas com uma relação simétrica e policentrada, sempre abertas à
inclusão de novos participantes.
Prática corrente do Movimento, desde a sua origem, as rodas enformaram o
funcionamento quer das reuniões de equipa do EI quer das seis oficinas alargadas que se
realizaram ao longo da investigação.

Instrumento de democratização das relações e de socialização interactiva do
conhecimento, as rodas contribuíram, sem dúvida, para o clima de participação
colaborativa que veio a enformar a equipa do EI.

As histórias de vida
Parafraseando A Nóvoa “a nova atenção concedida às abordagens (auto)biográficas no
campo científico é a expressão de um movimento social mais amplo, bem patente na
produção literária e artística. Encontramo-nos perante uma mutação cultural que, pouco a
pouco, fez reaparecer os sujeitos face às estruturas e aos sistemas, a qualidade face à
quantidade, a vivência face ao instituído.” (1991, p.18).
Partilhando esta perspectiva, o grupo do EI, na sua preocupação de melhor compreender
alguns fenómenos - nomeadamente a repercussão de vivências associadas ao Movimento
de Águeda na construção do currículo oculto de indivíduos por ele “tocados”, fazendo
deles “aquilo” que hoje são - optou por recorrer à recolha e análise de informação
pertinente, relativamente a algumas/várias histórias de vida.
As histórias de vida, alvo de estudo, constituíram um elemento crucial na compreensão
desta caminhada por facultarem o “acesso” ao olhar do destinatário sobre o próprio
Movimento, ou seja a compeensão de como tinham vivido/sentido ou continuam ainda
hoje a viver os seus efeitos. Este aspecto revelou-se crucial para o estudo entretanto
efectuado sobre os Efeitos do Movimento, por facultar o olhar sobre todo um processo,
através do sentir das pessoas em causa.
Na prática, esta técnica constituiu um nítido factor de qualificação tanto dos entrevistados
como dos entrevistadores. Aos primeiros facultou o reviver de um passado mais ou
menos longínquo, levando à conscienciatização de aspectos sobre os quais eventualmente
nunca haviam reflectido. Os autores das recolhas efectuadas descobriram, por seu lado,
coisas que desconheciam, passando a assumir assim uma nova relação com a realidade,
traduzindo este processo uma nítida reconstrução da própria pessoa.

As monografias
Apoiando-se em Gunther Franck, afirma João Ferreira de Almeida (1977) que “numa
realidade social particular existe simultaneamente o seu passado, o seu presente e o seu
futuro” (p.795). Foi tendo em conta esta tripla dimensão da realidade que o grupo EI
investigou diversas dinâmicas e processos vividos em Águeda – Contador de Sonhos,
Intervenção Precoce, Grupos Comunitários, etc.. – dando origem a monografias que
constituíram, simultaneamente, descritivos e leituras dessa realidade. Tais monografias
obedeceram à tripla características de que fala Ferreira de Almeida: o recurso a uma
“ampla gama de técnicas disponíveis (técnicas documentais, observação participante,
etc..), a recolha de abundante e heterogéneo material informativo” e “a multiplicidade de
facetas” exploradas (p.790).
Correspondendo, na prática, a Estudos de Casos, estas monografias foram preciosas para
a identificação de dimensões estruturantes do Movimento de Águeda, constituindo, em
simultâneo, processos de autoria por parte dos participantes do EI que contribuíram para
a seu e amadurecimento.
A análise documental
A recolha e análise de documentos começou a fazer-se logo em intenção à primeira
oficina, (dava a investigação os seus primeiros passos). Relatórios, artigos e
comunicações, fotografias – centenas delas –, que se achavam dispersas foram reunidos,
juntando-se também os dossiers existentes nas instituições mais envolvidas: Bela Vista,
Ensino especial e Centro de Saúde de Águeda.
Organizados em função das dimensões que se propunha para análise e em apoio à
reflexão nas oficinas, os vários documentos foram fundamentais:
- no reviver dos afectos, para o que em particular contribuíram as fotografias;
- na desocultação de alguns conceitos, como aconteceu a partir da leitura de vários dos
artigos e comunicações que se consultaram;
- no estabelecimento e fixação, no tempo, dos eventos que, organizados, nos facultaram
um fio condutor da História do Movimento.

A informação assim recolhida, diga-se, não era de molde a permitir um pleno
conhecimento da realidade do Movimento. Revelava vários hiatos que só o trabalho de
campo, etnográfico permitiu preencher. Daí que na análise documental se tenha optado
não por uma leitura sistematizada, organizada, mas sim “flutuante” isto é, para usar as
palavras de Bardin (1991), uma “leitura intuitiva, muito aberta a todas as ideias,
reflexões, hipóteses, numa espécie de “brainstorming” (p.75).
Não deixou de se revelar decisiva no levantamento de hipóteses que guiaram a
investigação desenvolvida.
As entrevistas
Foram muitas as entrevistas realizadas - próximo de uma trintena. Em grupo e
individuais. A crianças, mais jovens e profissionais. A quem participava ainda
activamente no Movimento e a quem se achava há muito afastado...
A riqueza da informação recolhida deve-se, em particular, à forma não directiva como
decorreram: sem um guião, sem pressupostos de partida, dando inteira iniciativa aos
“clientes” - para usar a expressão de Carl Rogers, tal como o recorda Muchchielli (1979)
– para exprimirem o que achassem pertinente.
Através delas se apropriou o EI dos efeitos da acção do Movimento em diferentes
sujeitos, do peso que as deficiências representavam para as famílias, das influências que
mais e melhor o qualificaram, do impacto afectivo de certas vivências feitas por alguns
dos seus actores.
Particularmente importantes, foram as duas primeiras entrevistas realizadas, a pessoas
que estiveram associados à apropriação de algumas das orientações mais emblemáticas
do Movimento, designadamente, as que se traduziram na aposta decisiva na integração
das crianças portadoras de deficiência – dava o Movimento ao seus primeiros passos - ou
na apropriação da abordagem de Carl Rogers e da antropoanálise.

4. Consideração finais

O EI foi um processo que trouxe, sem dúvida, qualificações tanto a nível individual como
colectivo. Quem o viveu apropriou-se não apenas de um pensamento estratégico como da
“arte” de o produzir e transformou-se não só de actor em autor como de destinatário em
mediador de acção.
Ao explicitar a ideologia do Movimento, o grupo inculcou-a em si mesmo e recriou-a
passando, de facto, a funcionar como um seu suporte e polarizador.
Ao mesmo tempo, ou talvez por isso mesmo, atingiu(-se) o propósito explicito da
investigação: recontar a História do Movimento de Águeda, identificando o que a ditou e
que a torna num exemplo de efectividade.
Foi esta, sem dúvida, a grande mais valia do EI.
Uma ideia errada seria, no entanto, pensar que se partiu do zero que o grupo que lhe deu
vida era uma folha em branco onde, como diz um poeta chinês, “se escreveram os mais
belos caracteres”.
É certo que o EI possibilitou a explicitação de conhecimento e acima de tudo a
construção de referentes teóricos que ajudaram à leitura e interpretação da realidade.
Mas, em última análise, o que acima de tudo aconteceu foi uma releitura e uma
refundamentação de Saberes e Saberes-Fazer que as pessoas do Movimento jà
dominavam e operavam. O EI pôs a nu e mostrou o impacto de afectos, de conceitos e de
competências que já lá estavam...Reforçou-os, aprofundou-os mas não os inventou...
Escreveu belos caracteres mas numa tela já pintada.
Num aspecto, entretanto, o EI terá ficado aquém do que se desejaria: o do envolvimento
do Movimento de Águeda como um todo. Ao nível do grupo nele implicado
directamente, conseguiu-se que fosse vivido como um processo endógeno de
desenvolvimento...Mas foram apesar de tudo limitadas as interacções com a ampla rede
de sujeitos do Movimento.
É certo que a abordagem etnográfica que enformou o trabalho de investigação ajudou a
conscientizar quem nele se viu envolvido. É certo também que as oficinas realizadas
funcionaram como espaços de devolução dos adquiridos pelo grupo EI, levando à
aproximação dos seus participantes. É certo, ainda, que as entrevistas, as histórias de vida
criaram condições a uma tomada de consciência dos visados. Mas era necessário mais
tempo e um, talvez, maior investimento na difusão dos resultados ao nível do Movimento
de Águeda como um todo.
Foi este, terá sido este, o único senão de um processo que não deixará, decerto, de
constituir-se como um marco na história do Movimento!
Mais difícil é o balanço que podemos fazer da nossa participação na, ou do nosso
contributo para, o EI transnacional. Participámos em todas as reuniões realizadas.
Partilhámos as reflexões produzidas em conjunto. E não podemos deixar de considerar
como positivos os feed-backs que recebemos sobre a “investigação” que realizámos. Mas
o facto é que a nossa opção metodológica foi singular e não é para nós evidente que dessa
singularidade tenha resultado uma mais valia explicita para o conjunto de investigação.

5. Bibliografia

Almeida, J. F. De (1977), Sobre a monografia rural, Análise Social nº52 vol.XIII,
pp.789-803, Lisboa: ICS
Barbalet, J. M. (2001), Emoção, teoria Social e Estrutura Social. Uma abordagem
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Barbier, R. (1997), citado por Montenegro, M. In Aprendendo com Ciganos: processos
de Ecoformação, p.15. Lisboa: Educa
Bardin, L. (1991), Análise de conteúdo, Lisboa: Edições 70
Bataille, M. (1981), Le concept de Chercheur collectif dans la recherche-action, in Les
Sciences de l’Education, 2-3-, pp.26-38
Bouchard, J. M. (1991), La formation Experientielle et théorie tripolaire de la formation,
in Pineau, G. e Courtois, B. (org.), La formation Experientielle des Adultes, Paris : La
Documentation Françaises.pp29-40
Chombart de Lauwe, P-H, (1983), La culture et le pouvoir: transformations sociales et
expressions novatrice, Paris: L’Harmattan
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Martins: Europa América
Diez, E. S. (2001), La vision écologique de la formation : une opportunité pour
l’apprenant, Education Permamente nº147. pp.99-109
Espiney, R. (1997), Especificidades de um projecto de educação de infância itinerante, in
Montenegro, M. (org.), Educação de Infância e Intervenção comunitária. Setúbal: ICE.
Morin, E. (1998), Sociologia, Mem Martins, Europa América
Mucchielli, R. (1975), A entrevista não directiva, São Paulo: Martins Fontes.
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Nóvoa, A. (2002), Prefácio, in Josso, M. C., Experiências de vida e formação, Lisboa:
Educaca. Pp7-12
Pacheco, N. (1993), Novos Olhares, novas relações em Stº Ildefonso, Setúbal: ICE
Ruscheninsky, A. (1995), Metamorfoses da cidadania. Sujeitos sociais, cultura politica e
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sociológica. Porto: Profedições.
Wenger, E altri (2002)(, Cultivating communities of practices, Boston: Harvard Business
School Press.


1 Zé Tovar, Isabel Cristina e Teresa Almeida integraram a equipa que assumiu o EI.
2 Significativo desta preocupação do Movimento é, por exemplo, o facto de, sendo desejo
da Fundação a existência de uma equipa de quatro pessoas, duas das quais exteriores a
Águeda, se ter imposto, como condição de participação, a existência (para além dos
outsiders) de uma equipa de 8/9 pessoas, não necessariamente fixas, concebida à
semelhança da teia que sempre funcionara em Águeda.
3 ver Parte II do relatório EI
4 As relações no Movimento sempre foram marcadas pela informalidade.
5 Naturalmente, também do estímulo que representava o reconhecimento que o Projecto significava.
6 Um dos 8 membros da equipa EI.
7 Um dos 8 membros da equipa EI
 8 Como vermos nas conclusões, não de forma tão ampla e profícua como se desejaria
9 e, nomeadamente, para a possibilidade que houve, também referida noutro lugar, de transformação do E. I. num espaço dinamizador da acção e da reflexão do Movimento como um todo
10 Não por acaso o verdadeiro salto do EI para dentro do movimento deu-se quando, em Junho de 2001, se suspendeu a reflexão que se planeara fazer (em intenção à investigação em curso) para debater longa e aprofundadamente a criseque atingia o movimento na sequência de constrangimentos nascidos de algumas políticas governamentais.


domingo, 28 de fevereiro de 2010

Seminário para o Associativismo III Associativismo e Democracia Participativa

ÁGUEDA 26-2-2010
Promovido pela D'Orfeu e Camara Municipal de Águeda
Orientadores :
Rui D'Espiney (ICE ) e Miguel Torres (ACERT) (dirigentes associativos de duas associações promotoras do Movimento pelo Associativismo e Democracia Participativa)
Participantes: 51 pessoas de cerca de 20 associações
O debate decorreu em torno de cinco questões chave:
O que se entende por democracia participativa?
Que relações entre a democracia participativa e democracia representativa?
O que é o Associativismo Cidadão?
Quando é que este é uma componente da democracia participativa?
Como promover a defesa da sustentabilidade económica do associativismo, enquanto condição necessária ao funcionamento da democracia como um todo ?
Ponto de partida para a reflexão:
As desigualdades que se manifestam na nossa sociedade, e o papel determinante que cabe às associações na inversão desta realidade:
As desigualdades entre os cidadãos: não se limitam a questões económicas, são também desigualdades no acesso ao exercício da cidadania do poder.
“O mais trágico da pobreza não é ao falta de teto ou comida é o resultado que produz na auto-estima das pessoas” (Madre Teresa de Calcutá) ... e desta auto-estima (auto-estigma) criada pela pobreza resulta a descrença da possibilidade/utilidade da participação.
As desigualdades entre os dois pilares da democracia, isto é, entre a democracia representativa e a democracia participativa : embora contempladas com dignidade igual na constituição, a primeira é financiada na propaganda, nos funcionários, nas actividades, nos eleitos... enquanto a segunda não é financiada de maneira nenhuma. Os próprio financiamento dos projectos, quando existe, exclui o funciona da associação que lhe dá vida... e as associações ainda têm de carregar o estigma da subsideodependencia. Será a democracia representativa considerada subsideodependente?
democracia participativa?
Democracia? É o poder partilhado. Democracia participativa ? O poder partilhado que se exerce ( enquanto a democracia representativa é o poder partilhado que se delega). As pessoas encontram-se em torno de incómodos, de desejos, de gostos, de projectos... democracia participativa: forma de poder em que pessoas ou grupos participam num objectivo partilhado, /e conseguem colocar na agenda pública assuntos ou questões que preocupam o grupo – de forma a influenciar decisãos políticas Combate às desigualdades do exercício de poder
Associativismo Cidadão?
associações enquanto escolas de cidadania: através do convívio entre gerações, do trabalho em grupo, em equipa... da partilha do sonho, do projecto... do respeito pelo outro, pelo da minha equipa ou pelo adversário... Como se desconstroi o perfil de “ser mandado”? Se temos capacidade para fazer coisas isso muda a nossa personalidade... a maioria dos dirigentes associativos de hoje formou-se como cidadão participativo no seu percurso associativo desde criança ou jovem. Enquanto escolas de cidadania as Associações são, a longo prazo, factor de coesão social .
relação entre associação e população: necessidade de informalizar;clareza de objectivos visibilidade dos mesmos para o público/transparencia/abertura do espaço público/ousar transmitir ideias novas A relação é mútua: há a participação que a associação que provoca na comunidade X mas também a comunidade gera participação na associação. Pedagogia da escuta.
Quando é que o Associativismo Cidadão é Democracia Participativa?
È necessário transcender os seus limites locais...colocar na agenda pública os temas do grupo – influenciar decisãos políticas É necessário descobrir os novos espaços/ ferramentas de expressão de cidadania Construir redes... Um projecto para a cidade?para a região? Causas partilhadas/Visibilidade Partilhar poder pressupõe prescindir de uma parte do meu poder para dar os outros, e construir o meu poder em função do poder do outro.Ao promover a associação do Outro promovemos a nossa; e necessário compreender que poder partilhado é poder fortalecido. As associações são formas organizados de democra participativa quando são elas próprias de espaços de aprendizagem/ construção de cidadania. E também promotoras de cidadania. Quando assumem a preocupação, a batalha, da formação cidadã -do cidadão que participa, intervem, que se sente incomodado com as injustiças e é capaz de se projectar para o futuro na construção de futuros alternativos.
democracia participativa e democracia representativa?
Como é que a democracia representativa e participativa se podem articular dentro de uma associação? A assembleia geral como espaço de participação é suficiente? A participação mais activa é bem vista? Necessidade de eliminar a hierquização na capacidade de transmitir ideias novas... A historia do associativismo é a história da construção de cidadãos... a democracia representativa tem de espelhar esta nova pratica de poder dos novos cidadaos.
E não esquecer:
Que este Workshop se insere no Movimento do Associativismo e Democracia Participativa...
Que já aderiram mais de 100 associações
Que se prevê a realização de um Congresso em Novembro 2010
Que se pretende dignificar /requalificar /fazer reconhecer o
papel do Associativismo na construção de cidadão participativos/factor de coesão social Que se pretende dignificar /requalificar /fazer reconhecer a Democracia Participativa enquanto sustetáculo da Democracia, a par com a Democracia Representativa.
Que se apresentará um Caderno Revindicativo.

domingo, 31 de janeiro de 2010

III Seminário para o Associativismo: Associativismo e Democracia Participativa - ÁGUEDA

domingo, 31 de Janeiro de 2010
III Seminário para o Associativismo:
Associativismo e Democracia Participativa
27 Fev 2010 | ÁGUEDA
A Câmara Municipal de Águeda com a d'Orfeu Associação Cultural e mais associações do concelho, promove no dia 27 de Fevereiro, Sábado, o III Seminário para o Associativismo, subordinado ao tema Associativismo e Democracia Participativa.
Tendo em conta o grande êxito alcançado nas edições de 2008 e 2009, a Câmara Municipal de Águeda e a Associação Cultural d’Orfeu irão realizar o III Seminário para o Associativismo: Associativismo e Democracia Participativa.
Este ano o seminário tem um formato diferente e debruça-se sobre os desafios e as potencialidades criadas pelos pontos de contacto entre Associativismo e Democracia Participativa, tendo como objectivos muito claros: promover a re¬flexão conjunta sobre princípios-chave para o exercício da cidadania; promover a reflexão sobre a requalificação da Democracia Representativa; criar movimento social no sentido da consciencialização; promover a defesa da sustentabilidade económica do associativismo, enquanto condição necessária ao funcionamento da democracia como um todo; implicar as associações nos domínios de acção; promover o associativismo como espaço de cidadania e forma organizada da democracia participativa.
O seminário conta com Rui D’Espiney (Instituto das Comunidades Educativas) e Miguel Torres (ACERT) como oradores. As inscrições são gratuitas e estão abertas até às 17:00 de 24 de Fevereiro, devendo para o efeito contactar a Câmara Municipal de Águeda através do telefone 234 610 070 (ext. 236 ou 220), através do endereço de correio-e paula.loureiro@cm-agueda.pt ou enviando a sua inscrição para Câmara Municipal de Águeda - Praça do Município - Águeda, 3754-500 ÁGUEDA, com os seguintes dados: nome; profissão; instituição/serviço; telefone/telemóvel; correio-electrónico. As inscrições são limitadas, dando-se prioridade às Associações Culturais, Recreativas, Desportivas, e Sociais do Concelho de Águeda.
PROGRAMA
10:00 – 13:00 | O que se entende por democracia participativa? O que faz dela um projecto e uma prática política reivindicativa?
14:30 – 19:00 | O que é o Associativismo Cidadão? Quando é que este é uma componente da democracia participativa? Como podem as associações aprofundar o exercício da cidadania?
FICHA DE INSCRIÇÃO (Participação gratuita) Organização | Câmara Municipal Águeda & d’Orfeu Associação Cultural Apoios | Instituto das Comunidades Educativas, ACERT, Biblioteca Municipal Manuel Alegre
Inscrições limitadas (dando-se prioridade às Associações Culturais, Recreativas, Desportivas, e Sociais do Concelho de Águeda) Para conhecer outras iniciativas promovidas pelo movimento do associativismo consultar sítio-electrónico
http://movimentodoassociativismo.blogspot.com/ Nome: _________________________________________________________________
Profissão: _______________________________________________________________
Instituição/ Serviço: ________________________________________________________
Telefone/Telemóvel: _______________________________________________________
Correio-electrónico: ________________________________________________________
CONTACTOS & INSCRIÇÕES | Paula Loureiro - Câmara Municipal de Águeda | Tlf. 234 610 070 (ext. 236 ou 220) | paula.loureiro@cm-agueda.pt | Praça do Município - Águeda, 3754-500 ÁGUEDA

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

NO "SOBERANIA DO POVO": artigo sobre o associativismo em Águeda

Se os números dissessem tudo, o concelho de Águeda seria o paradigma do país. Um exemplo e um orgulho para todos. Existem em todo o concelho, declaradas, mais de centena e meia de associações desportivas, recreativas, culturais, musicais, de solidariedade social e outras.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Informalidade - espaço e estratégia para a mudança, qualificação e prevenção

Texto colectivo produzido num workshop envolvendo diversos profissionais, promovido pelo Centro Social Infantil de Aguada de Baixo, no âmbito do Projecto “Família: um presente com futuro”, financiado pelo IDT e orientado pelo ICE (Institituto das Comunidades Educativas) nos dias 15 e 16 de Janeiro de 2009

o que está em causa :

Qualquer profissional, qualquer projecto, qualquer intervenção não se faz senão para mudar.

Por exemplo, numa sala de aula: o objectivo é qualificar, mudar aquelas crianças. No consultório médico, o objectivo é introduzir factores de mudança no sentido de melhorar a saúde da pessoa . Quando desenvolvemos um projecto de intervenção comunitária, esperamos intervir no equilíbrio daquela comunidade, obtendo um novo equilíbrio supostamente diferente, e mais gratificante, que o anterior.

Um profissional tem uma abordagem técnica e uma abordagem pedagógica. Qual privilegiamos?

Como profissionais: provocamos mudanças, ou limitamo-nos a transmitir conhecimentos?

Mas é necessário definir que tipo de mudança se pretende:

Sempre que haja uma crise há mudança. Há um processo continuo de mudança. Há mudanças para pior. Há mudança para que fique tudo na mesma...

Há mudanças de primeiro nível, acontecem todos os dias... e há mudanças estruturais, que mudam a nossa atitude perante a vida.

A mudança que procuramos no outro tem como referência nós próprios? Ou um ideal que desejaríamos para nós próprios? Ou é um processo , um caminho em que o objectivo se vai construindo com o Outro?

E há que definir o objecto da mudança:

Há um “público alvo”, há destinatários... os alunos de uma escola, os utentes de uma lista, a população de um bairro, um grupo de famílias... uma instituição...

No entanto... como podemos mudar os outros se nós não mudarmos?

A mudança é um processo colectivo, não se muda sozinho... Nunca mudamos sozinhos, mudamos com um grupo, mudamos com constrangimentos... Um processo de mudança implica uma mudança nas relações sistémicas.

A pedagogia é por essência uma relação...que permite a cada interveniente recriar a sua relação consigo próprio...

A mudança é a criação de um novo equilíbrio – que é que nos “muda”?

As alturas em que mudei: foi quando alguem descobriu, comigo, algo completamente diferente que eu podia ser...

O olhar dos outros...os afectos? Sentir-se olhada de uma maneira diferente... se nós que estamos ali, nós gostamos dela... então ela pode olhar-se de forma diferente, pode gostar de si própria.

Não tem de haver um deficit para que haja um caminho (mudança) positivo

Que faz as pessoas mudar?

O incómodo, a crise...Blockquote

O prazer, o Amor...

A expectativa, a construção de uma nova expectativa de futuro.

Mudança? Passa pelas pessoas catalizadoras dessa mudança (As pessoas que encontramos e nos desarrumam a cabeça... )

Mudamos na medida em que não deixamos fechado o nosso desenvolvimento.

Daí a dificuldade na mudança no adulto – está formatado. No entanto, o desequilíbrio é diário, seja ele identificável ou não. E quando há desequilíbrio, há possibilidade de mudança, e possibilidade de encontrar pessoas catalizadoras dessa mudança.

O que queremos, de facto, mudar ?

Há uma condição externa que nos organiza. Uma lógica de competição, que nos valoriza ou desvaloriza em relação a objectivos que nos são externos ,que não controlamos. Que nos fazem andar numa infelicidade permanente por não conseguir chegar a um padrão ... somos condicionados por um padrão de excelência inatingível porque exterior.

Queremos mudar no sentido da descoberta da nossa própria excelência, recriar a relação conosco próprios retomando o poder de conduzir a nossa vida, estabelecer os próprios objectivos. A partir do que somos, do “mais ser” que contemos... mudar no sentido da descoberta do nosso espaço de poder solidário na relação com o Outro no fundo na capacitação de cidadania...

MUDANÇA (estratégias para conseguir mudança)-

Como pode o profissional ser catalizador de mudança?

Até que ponto uma sociedade organizada por uma intervenção técnica, formatada, tem capacidade de se desenvolver ? São necessários profissionais não formatados, abertos ao desenvolvimento.

Não actuar com regras rígidas: criar diversidade de portas.

Abordagem sistémica: há que analisar quem rodeia o individuo, as caracteristicas culturais, a forma como o individuo olha para o problema /uma possibilidade é conseguir mudar o angulo de visão.

Há sempre que trabalhar a confiança: conseguir que o nosso “público” perceba que consegue, se quiser, mudar. A relação de confiança, empatia, cria substrato favorável à mudança.

Há vantagem em criar a possibilidade de vários individuos interajirem ,(interpares) – pode, por exemplo, evidenciar que, num certo caso, uma mudança deu resultados

A acção sobre um ponto, factor A, pode ter influência sobre o factor B.

A oferta de conhecimento é, também, uma das possibilidades .

É sempre preferível intervir não com uma única estratégia pré-definida, mas antes abrir portas com diversas estratégias, permitir interacção interpares; identificar problemas (a mudar) mas nunca com julgamento de valor ( nunca o visadodo deve sentir a ajuda como uma crítica).

A mudança enquanto processo endógeno

Para qualquer processo de mudança é preciso : conhecer; ter vontade

conhecer as normas, as regras, o funcionamento dos condicionantes que fazem com que o sistema se mantenha na posição actual; conhecer as possibilidades.

A mudança pressupões vontade e a vontade conhecimento. Não há objecto de mudança, há sujeito de mudança. Podem criar-se condições, mas a mudança é um processo endógeno

A abertura/predisposição é fundamental, tem de existir...no entanto, às vezes mudamos sem nos apercebermos... e a mudança precisa de ajuda dos outros.

Nunca mudamos sozinhos:mudamos com um grupo, mudamos com constrangimentos. A mudança é um processo colectivo, não se muda sòzinho...

Um processo de mudança implica uma mudança nas relações sistémicas

Pretendemos que as condições de vida da pessoa mudem gradualmente. Para mudar temos de ter objectivos e metas, e esses objectivos e metas são de quem? Se amudança é endógena, então é o sujeito da mudança que constroi os seus próprios objectivos e metas... se a mudança se opera numa relação pedagógica, os próprios objectivos podem surgir de forma partilhada.

A abertura/predisposição é fundamental, tem de existir...no entanto, às vezes mudamos sem nos apercebermos... e a mudança precisa de ajuda dos outros.

A mudança é sempre multifactorial.

A informalidade é uma condição que fortalece as relações de confiança necessárias à mudança.

O PAPEL DO PROFISSIONAL COMO CATALIZADOR DE MUDANÇA/PENSAMENTO ESTRATÈGICO

O ovo para “dar pinto” precisa calor... mas é necessário percebermos que nós, catalizadores, somos o calor do ovo, não o OVO

Os profissionais mudam na intervenção, na interacção com a realidade, na interacção com o outro.

É por isso que se fala de processo eco-formativo: mudamos a realidade mudando nós com ela. Blockquote

É o que se passa com as crianças numa escola: a turma no final do ano não é a mesma que no início do ano. Não há processo de mudança que não seja eco-formativo.

O processo de mudança é democrático, não se decreta. O papel do interventor é criar oportunidades, ou pelo menos mostrá-las – levar a pessoa a tomar consciência da existência da oportunidade. Vai-se à busca do que há de positivo dentro de pessoas (recursos internos) – para trabalhar a segurança (auto-confiança) ... não se muda sem inquietação, mas é necessário trabalhar a segurança através da inquietação. O intervenctor precisa também de segurança, mas inquietamente, sem ter a certeza que os resultados sejam seguros.. interrogando-se.

Toda a mudança não é um projecto, é um processo... não há meta, há criação de permanente predisposição para a mudança.

Um obstáculo à mudança pode ser o conjunto de circunstâncias em que a pessoa se encontra.

Ao trabalhar a mudança vamo-nos confrontar com os elementos de não mudança que há nas instituições, na sociedade, nos diversos contextos e sistemas que estão organizados de forma a manter a estabilidade, a não mudança. Por isso,trabalhamos o processo de mudança com a constante ameaça da regressão

A mudança implica o conhecimento da realidade que vai mudando ao passo que a construimos. A atitude do profissional tem de ser uma atitude de constante pesquisa...

A INFORMALIDADE COMO ESTRATÉGIA DE ORGANIZAÇÃO DO RELACIONAMENTO DE PESSOAS

que é informalidade?

há ou não regras na informalidade? o formal vai no sentido da preservação do conhecimento... a informalidade tem as regras... mas aí já vamos para a educação, os princípios, as morais...a informalidade está ligada à flexibilidade...

Se o “modo de estar” é exterior e acaba por se impor a todos, é formal. Se organizo um encontro que permite os vários estares, é informal – permite que o ESTAR de cada um tenha possibilidade de se tornar efectivo. Quando discutimos formal/informal, estamos a discutir o a internalidade ou externalidade das regras que nos organizam...

A informalidade tem a ver com a busca da genuidade das pessoas, da organização pelo afecto e não pela regra. As regras , os valores, as representações estão lá, ninguém as esqueceu. Mas há um outro factor – os afectos , a espontaneidade – que são factores organizadores do espaço.

São eixos estruturantes da formalidade/informalidade: o poder/ os modo sde vida/ a interioridade ou exterioridade das regras.

Porque é que a informalidade é estratégia de mudança?

Num contexto de Informalidade espera-se que o poder se organize de forma não hierarquizada.

Todas as pessoas entram em relação umas com as outras numa relação de poder. Estamos organizados por poderes. A informalidade tem a ver com a busca da genuidade das pessoas, da organização pelo afecto e não pela regra. Estamos a discutir a informalidade como estratégia de organização do relacionamento de pessoas – permitindo uma maior exposição.

No entanto, só funciona se as pessoas se sentirem bem nessa informalidade. Quando entra em relação um conjunto de pessoas entra em relação um conjunto de culturas – posso sentir-me exteriorizado quando entro na informaliade de outra cultura. Se entrar num contexto em que não entro em relação (estou exteriorizada) não estou a ser eu, sou castrada de mim própria...

A informalidade tem de ser construida – sabendo à partida que é impossiível criar informalidade completa. Estamos organizados por poderes., por regras ocultas...

O objectivo da informalidade, enquanto estratégia de mudança, é permitir que as pessoas cresçam a partir delas próprias e que cada um seja um ser especial (desocultar o “mais-ser” a útopia de cada um).

Até que ponto há informalidade se a informalidade é conduzida?

A informalidade pode ser considerada ferramenta? Ou é uma coisa sentida?

Se a intenção é usar informalidade: o profissional também pode ser completamente espontâneo? Ou está a animar uma espaço informal no qual ele, profissional, está num papel diferente, de organizador dainformalidade?

Ninguém intervém sem uma intenção. Se a explicitação das intencionalidades, ganha a forma de um plano, com regras rígidas pré-cocebidas, está criada a formalidade... -o que está em causa é se as minhas intencionalidades organizam o comportamento dos outros de tal forma que condicione os caminhos de cada um. Se o estar é exterior e acaba por se impor a todos, é formal. Se organizo um encontro que permite os vários estares, é informal .

Como trabalhar a informalidade em diversos contextos?

À partida, ao apresentar-me informalmente – apresento-me mais frágil. No entanto, se a intencionalidade que transporto é clara, a fragiliadade não se coloca...

Como puxar a informalidade para o contexto formal?

Deixar que o outro perceba que nós temos fragilidades, sentimentos, dúvidas. Que possamos correr o risco de nos dar a conhecer como pessoas. As relações fazem-se entre pessoas...

Na informalidade, entramos como “gente com gente na frente” pessoa em relação com outra pessoa... Como nos vêem os outros?

Tudo é importante: o modo de vestir e falar dos profissionais – o risco de criar distancia X risco de perder credibilidade. A comunicação não verbal: pode ser inibidora ou facilitadora. O que as outras pessoas sabem de mim – os medos. Os bloqueios ocultos.

Não há receitas para trabalhar a informalidade... há preocupações e estratégias que podem ser reflectidas e partilhadas, mas tudo passa por nós..

Um dos aspectos que só se consegue com a informalidade é a capacidade de trabalhar a partir das memórias – viagem pelo passado – vista do passado da perspectiva dos valores e experiencia que tenho hoje. Ao passado ligam-nos os afectos, amores e ódios. Ao conseguirmos que a pessoa se re-visite e partilhe, há de facto participação – e mais quando a criança vai devolver ao pai a história que o pai contou. A ideia de trabalhar a memória é de facto uma estratégia fundamental na construção de mudança – pode inclusivamente reconstruir a relação de pais com filhos.

Um dos aspectos da informalidade é estar ao serviço da democracia – a criação de condições do exercício da democracia pelo cidadão.

Fundamentalmente, trabalhar na informalidade implica funcionar com o outro: ter em conta o funcionamento do outro, o horário, a possibilidade... Ter em conta que os processos de socialização se dão 2 a 2, 3 a 3... No fundo o que está em causa é a criação de novas sociabilidades.

sábado, 29 de março de 2008

sábado, 8 de março de 2008

educação especialmente inclusiva

A Educação que se constrói como “EspecialmenteInclusiva”

Rosa Madeira - Universidade de Aveiro

Neste artigo queremos abordar a Educação Especial e a Escola Inclusiva, como indícios da relação das Sociedades com a Diferença ou Diferenças que, em cada momento da sua história, estas reconhecem e sancionam, positiva ou negativamente.

Esta perspectiva nos parece interessante na medida em que consideramos que as pessoas portadoras de deficiência constituem um dos grupos sociais que a sociedade identifica por diferenças que são constantemente transformadas em critérios de discriminação social que, por sua vez, legitimam o desvio das suas trajetórias da confluência da vida comunitária.

É neste contexto que nos propomos reflectir sobre as implicações das concepções e práticas dos educadores e de outros atores sociais a quem a sociedade delega o poder de sinalizar, descrever, medir e atribuir significado valorativo a características, desempenhos e interpretações das crianças e jovens com deficiência.

Consideramos que a educação tem sido promovida como meio de homogeneizar disposições sociais e níveis de produtividade individual que contribuem para consolidar processos de normalização de funções e papéis sociais a que resistem, por diferentes razões, diversos grupos sociais. Desta perspectiva, podemos considerar que as pessoas portadoras de deficiência fazem parte de um grande grupo que inclui as minorias étnicas, lingüísticas, raciais e/ou religiosas, na condição de imigrantes, de refugiados ou de pobreza.

O que há de comum em todos estes casos é que a diferença de atributos pessoais e o respectivo impacto nas relações sociais é desigualitariamente avaliado pelo grupo dominante, que se identifica e faz-se identificar como padrão de referência. Assim, o problema da relação das sociedades com as diferenças individuais pode também ser analisado criticamente como expressão e reprodução de assimetrias entre os que definem e os que são definidos como “diferentes”.

É considerando a Educação inclusiva como um dever das sociedades que se construíram historicamente sobre a recusa da naturalização da desigualdade entre seres humanos, que se pode problematizar a educação especial que justifica a separação de contextos e de trajetórias de vida das crianças e jovens da mesma Comunidade. Deste ponto de vista, a Escola inclusiva constitui uma alternativa à Educação Especial, que se constrói por referência a padrões de desenvolvimento, de aprendizagem, de comportamento e que reforçam concepções de média, de norma e de desvio.

Neste artigo nos propomos revisitar e contextualizar, social e historicamente, a narrativa da experiência de um grupo de educadores que animou um movimento social local que se tornou conhecido a nível nacional e internacional como alternativa a formas convencionais de educação especial.

Como veremos adiante, este movimento emergiu em Portugal em meados dos anos 70 e teve a sua origem a interacção entre pais, profissionais e outros agentes locais ligados aos sectores de educação, saúde e segurança social que, ao longo do tempo, se foram constituindo como "comunidade de interesses". Foi a partir desta estruturação mínima das suas relações interpessoais que alguns destes elementos da comunidade puderam desenvolver uma filosofia social e adoptar como finalidade comum, o não consentimento e a erradicação da exclusão de qualquer criança da comunidade.

Dentro de limites, variáveis ao longo do tempo, este grupo pôde construir a sua ação à margem dos tipos ideais que estruturavam a educação especial. Para isso, teve que desconstruir os estereótipos de “deficientes”, de "inadaptados", de “reabilitadores” ou “reeducadores” incorporados no seu próprio pensamento, linguagem e práticas, nas quais se reproduziam os princípios de visão e de divisão do mundo social que excluía aqueles para quem reclamavam a inclusão social.

Era esta realidade social objectivada nas situações, mas também interiorizada nas subjectividades construídas pela socialização primária e secundária, que grupo se dispunha a reconhecer para transformar, através da acção-reflexão-acção nas comunidades de interesse que constituía. Era a partir desta outra base social da sua intervenção que puderam investir consistentemente na reinvenção de trajectórias de inserção e de produção de conhecimento social, que era percepcionado como contra-corrente à reprodução da desigualdade e da exclusão inerente à sociedade. Sociedade formada pela hierarquização de laços de pertença, inclusão e identidade comunitária e por princípios universalistas que constituem os Estados-Nação.

Pensamos que a narrativa deste percurso pode tornar mais visíveis e pronunciáveis as relações sociais que se estruturam e definem em diferentes níveis ou escalas de acção social. Pode contribuir para desnaturalizar a desigualdade de oportunidades de inclusão e reconhecimento social, justificada pela categorização de diferentes características, tipos e níveis de desempenho de interpretação da realidade, que classificam para hierarquizam indivíduos e grupos sociais, qualificando ou desqualificando subjectividades segundo a posição.

O caso que aqui discutiremos nos parece também interessante porque põe em evidência a relação da educação com uma sociedade que, tendo saído, através da revolução de Abril de 1974, de um período de cristalização das instituições sociais, teve que passar por sucessivos processos ou fases de estruturação/reestruturação das relações (macro, meso e micro) sociais, ao longo dos últimos 30 anos.

Reconhecendo-se como parte desta história social e desta totalidade dinâmica de relações sociais, o grupo foi-se movendo e foi mobilizando recursos locais e outros atores sociais na criação de espaços e laços sociais novos que tornaram possível a inclusão de alguns grupos, na reconstrução constante do seu próprio conhecimento social e pedagógico e na cuidadosa exploração de margens de liberdade de pensamento e de acção social no interior da comunidade e do Estado.

Ao dar visibilidade aos progressos e retrocessos vividos por estes educadores, que se descobriram apenas relativamente autónomos no interior da Comunidade e do Estado relativamente autónomo face a instâncias internacionais, queremos pôr a hipótese da Escola inclusiva poder ser, dentro de alguns limites, construída como lugar de tomadas de posição que desestabilizem os mecanismos da reprodução social, precipitando assim a reconstrução e a democratização social.

Defendemos que a replicação ou a alteração das dinâmicas e das relações sociais estabelecidas pela exigência de funcionalidade do regime de acumulação capitalista, dependem, em certa medida e em dados momentos cruciais, do compromisso que tanto educadores quanto os pais e demais atores sociais, assumem relativamente às crianças, aos idosos, às pessoas portadoras de deficiência ou em situação de crise e de outras minorias ( étnicas, raciais, sexuais, religiosas). Sendo os Educadores social e politicamente investidos da tarefa de discriminar diferenças ou antes sujeitos “diferentes” que perturbam a “harmonização” de funções sociais, podem recusar ou negociar critérios de classificação social que posicionam os sujeitos como “desiguais”. De certa forma e em certa medida, a manutenção da funcionalidade ( pelo menos parcial) dos sistemas económicos que produzem a exclusão e que não estão comprometidos com a construção da igualdade entre todos os cidadãos, dependerá do modo como os educadores se posicionem diante das circunstâncias dos grupos subordinados ou excluídos.

Foi através desta tomada de consciência e de posição (axiológica e política) que, a nosso ver, este grupo pôde desenvolver um ponto de vista alternativo à possibilidade e direito à inclusão social, como princípio a universalizar pela sua praxis individual e colectiva. A ideia de que seria possível construir um outro lugar de existência comum, em que aqueles que se descobriam como semelhantes poderiam valorizar a singularidade pessoal de todos os outros, parece ser a utopia que deu consistência à multiplicidade de acções desenvolvidas pelo grupo de Águeda.

Foi procurando desocultar para compreender estas contradições sociais entre a retórica da igualdade e o sancionamento das diferenças com efeitos sobre a vida de alguns grupos mais vulneráveis à discriminação negativa, que o grupo pode ir construindo um “outro” caminho feito a caminhar, contra a exclusão e a favor da inclusão, contra a diferenciação desigualitária e a favor da construção da igualdade, contra a classificação das características segundo padrões de norma, media e desvio e a favor reconhecimento das diferenças como expressão de subjectividades, assumindo a diversidade e a interdependência humana como valor e desafio a imaginação social.

Para situar os leitores no contexto a que nos referimos, começaremos por fazer uma breve referência à comunidade em que se inscreve esta experiência e ao processo de construção da igualdade e da diferença a que o grupo teve que responder no campo da educação especial.

Num segundo momento passaremos a narrar e a problematizar o movimento social contra a exclusão das crianças portadoras de deficiência nos contextos educativos da comunidade e na escola, enquanto lugar social situado entre o Estado e a Comunidade.

De seguida, faremos uma incursão sobre como as relações sociais, estruturadas a nível macro social e no exterior da comunidade, participaram para que o movimento pela inclusão em curso tivesse que ser traduzido em outras linguagens para manter-se dentro do âmbito da acção do Estado Providência e ao abrigo das relações locais que reagiam à problematização da desigualdade social como constrangimento do acesso e sucesso educativo das crianças dos grupos subordinados.

Finalmente, retomamos a discussão sobre a Educação Especial e a Escola Inclusiva como pólos de uma tensão social que se expressa nas decisões políticas da Sociedade mais ampla e que deveriam ser apreendidos como limites mas também como desafios à reconstrução social por novos sujeitos colectivos que se possam identificar pela capacidade de atravessar fronteiras entre escalas, saberes, poderes, linguagens e as próprias disposições sociais incorporadas nas suas práticas, para reinventar a sociedade.

A construção da igualdade e da diferença na Comunidade de que fala a narrativa

A Experiência que aqui apresentamos teve lugar num Município localizado na zona Centro de Portugal., com cerca de 50.000 habitantes. Trata-se de uma região reconhecida pelo desenvolvimento econômico alcançado com a industrialização que, em poucas décadas, transformou agricultores em operários e alguns operários em empresários.

Embora a população mantenha laços afetivos à terra e a valores que estruturam e dão significado ao mundo social rural, o ritmo e a intensidade do processo de industrialização submeteu todos os grupos sociais a um processo de aculturação e de reestruturação da sua vida individual e colectiva segundo valores da Modernidade.

A Revolução de Abril em1974 veio acelerar e orientar estas transformações no sentido da democratização das oportunidades sociais e da desestabilização de hierarquias sociais que eram naturalizadas pelas comunidades. Naquele período, as pequenas e médias empresas multiplicaram-se por iniciativa de muitos operários e ex-agricultores que na época tinham um mínimo de propriedade para investir o capital tecnológico que tinha desenvolvido numa posição subalterna e ao serviço de grandes empresas.

Esta alteração fez com que alguns grupos tivessem melhorado as suas condições de vida e de acesso a outras oportunidades, designadamente a novos rendimentos e direitos sociais. Este processo não abrangeu, no entanto, todas as famílias residentes e muito menos as famílias imigradas de zonas pobres do interior. A estas famílias coube assumir quase exclusivamente as tarefas produtivas que requeriam maior esforço e que, por serem pior retribuídas, foram abandonadas pelos naturais. Esta posição, baseada na distinção negativa entre sujeitos que deixaram de reconhecer-se como semelhantes, fez com que muitas famílias tivessem perdido laços sociais como o centro da comunidade, tornando-se assim reclusas da periferia..

Para diferenciar-se e para consolidar a nova identidade social, definida pela alteração de posições sociais relativas, a classe social emergente começou a definir como “ïnferiores” os grupos subordinados ou os que não podiam garantir o aumento de níveis de produtividade. A estes grupos era atribuída a responsabilidade do não aproveitamento das oportunidades sociais que iam sendo criadas mas que só eram universais na aparência e na retórica.

A estas famílias naturais, que foram discriminadas negativamente para legitimar as novas desigualdades sociais que se estabeleciam localmente, vieram entretanto juntar-se populações do interior e as famílias provenientes dos países africanos descolonizados naquela época. As condições sub-humanas de alojamento e a inexistência de relações de acolhimento dos que eram identificados na comunidade como outros, ou como “os de fora”, contribuiu para a desqualificação de algumas áreas de residência que passaram a concentrar alguns segmentos da população.

As barreiras sociais e de comunicação que foram sendo construídas criaram condições de estigmatização daqueles grupos por aqueles que animavam os novos círculos sociais criados com a melhoria de condições de vida, de contrato social e de reconhecimento de direitos sociais.

Esta dinâmica de reestruração e ressignificação das relações locais, segundo outras lógicas de pertença, identidade e inclusão social, participaram para o empobrecimento relativo de muitas famílias de trabalhadores indiferenciados, cuja imagem de precariedade e dependência passou a contrastar cada vez mais com a imagem de sucesso e “altruísmo” das “outras” famílias.

O próprio isolamento que havia deixado algumas famílias sem redes de protecção social, as distanciou dos espaços onde ia sendo construída a cidadania promovida com a democratização do Estado. Era neste outro lugar que as outras famílias da comunidade começavam a substituir hábitos de solidariedade directa sem receber contrapartidas simbólicas.

Nesta dinâmica, combinava-se a luta de uns grupos por melhorar as suas novas condições de vida individual com a resistência de outros grupos contra a apartação social que o grupo de educadores, pais e outros agentes locais de Águeda, encontraram, indo de lugar em lugar e quase porta a porta, como é o caso de crianças cujas características físicas ou desenvolvimentais pareciam comprometer a integração social também das suas famílias.

Um grande número das crianças, jovens e adultos destas zonas em transformação eram invisíveis na comunidade. As famílias viviam isoladas e na sua maioria tinham rompido com as redes de apoio social tradicionais da comunidade. Na ausência de redes sociais formais elas tinham que atender e por vezes esconder, os seus dependentes com deficiência, vistos como diferentes pela comunidade.

A acção do grupo foi desencadeada pelo contacto directo com situações de total marginalidade em que se encontravam as crianças e jovens portadoras de deficiência e outras que a comunidade sinalizava por diferenças comportamentais. Mobilizado pela preocupação com o impacto da relação negativa das comunidades e das famílias com as diferenças destas crianças, o grupo se organizou contra as condições desumanizadas e desumanizantes geradas pelo grau de restrição e abandono social em que elas vivam, sob a responsabilidade exclusiva de pais, também isolados e estigmatizados pelo meio.

A construção de espaços de inclusão dos excluídos, no interior das Comunidades

Na luta por encontrar respostas para a realidade de que tinha tomado consciência, o grupo obteve uma casa emprestada como sede da sua intervenção, mas rapidamente esta foi transformada num Jardim-de-infância1 que pudesse integrar parte das crianças que estavam reclusas no espaço doméstico ou ainda no espaço da fábrica e/ou do trabalho agrícola de subsistência. Neste novo lugar, criado para as crianças da comunidade, 20% das vagas pertencia a crianças portadoras de deficiência, independentemente do tipo e do grau das suas dificuldades de movimento, de comunicação ou de autonomia em actividades de vida diária, decisão que foi facilitada por já haver alguma experiência acumulada por uma educadora e por dois pais que integravam o grupo base.

Durante quase duas décadas, este Centro de Educação Integrada foi a sede do grupo que animava o Movimento pela inclusão no Município, apesar da inevitável dispersão dos profissionais pelos novos serviços de educação, saúde e apoio social que foram sendo criados para reforçar e diversificar os recursos locais de apoio às crianças, suas famílias e educadores de infância.

Durante duas décadas este serviço reuniu pessoas em torno de ideias, mas sobretudo de problemas sociais concretos de crianças excluídas ou em desvantagem, que resultaram em processos e projectos de ações, que foram sendo formalizadas como serviços de apoio à infância na comunidade. Nestes novos serviços, a inclusão das crianças e de grupos em risco de exclusão social se instituiu como um princípio de toda a acção social.

A partir de Outubro de 1975, um grupo de crianças identificadas como portadoras de autismo, síndrome de Down, surdez profunda, paralisia cerebral e atrasos graves de desenvolvimento, começou a fazer parte dos vários grupos de crianças deste Jardim de Infância. O processo de integração de cada uma e de todas as crianças na confluência da vida do Centro, foi pensado a partir de uma outra lógica ou racionalidade que permitia ver as vantagens dos grupos heterogéneos, como forma de promover relações de interdependência entre crianças com diferentes idades, níveis de desenvolvimento, interesses e recursos de autonomia e de comunicação.

Na perspectiva do grupo e dos profissionais que foram sendo integrados, a finalidade seria prestar a todas as crianças os mesmos cuidados e a mesma atenção educativa de que cada uma necessitasse para lidar com estas novas circunstâncias e regras de convivência entre elas e delas com os adultos. O que importava ao grupo era explorar situações de interação social, de comunicação, de descoberta e de aprendizagem entre crianças diferentes (porque únicas) dentro e fora das salas de actividades, com a participação dos pais, irmãos e de outras pessoas da comunidade envolvente.

O desafio era facilitar e manter a interação entre as crianças, entre os educadores e os pais, ou seja, entre conjuntos de relações interpessoais e entre grupos que se fossem constituindo a partir de interesses comuns. Era nestes grupos que se procurava enriquecer as oportunidades de comunicação e de aprendizagem entre todas as crianças com atenção a cada uma.

As crianças com maiores recursos de participação estavam envolvidas nas mesmas situações em que os seus companheiros com dificuldades de locomoção, comunicação, compreensão e adaptação social, havendo momentos em que as diferenças de modos e níveis de desempenho exigiam muita criatividade dos educadores que tiveram que redefinir com os pais o que se passaria a entender como uma “ boa educação” para todos.

O que teve que ser constantemente revisitado foram os objetivos e os conteúdos das experiências das crianças, com que se ia dando forma e consistência ao currículo e aos diversos contextos criados. O que em nenhum momento era posto em causa era a integração como direito social inalienável de cada criança.

O foco passou a ser a intencionalização das interações sociais com e entre as crianças e dos adultos entre si, porque esta era considerada a actividade principal dos educadores, partilhada com outros adultos envolvidos no processo. A capacidade de comunicação e a imaginação de contextos que pudessem prevenir e tirar proveito das tensões e dos problemas práticos através do o uso dos espaços, do tempo, dos objetos e dos acontecimentos, eram colectivamente transformados em materiais de formação. O próprio papel dos educadores e dos pais foi sendo redefinido em função dos contextos, pretextos, formas e conteúdos de comunicação que emergiam com e entre as crianças e que, devido à novidade e risco da situação criada, requeriam ser escutadas com mais atenção.

O reconhecimento das diferenças, radicado na preocupação com a igualdade de oportunidades, criou um outro sentido para a educação, na sua dimensão comunitária.

Em 1978, muitas das crianças com deficiência eram reconhecidas e investidas como agentes de sensibilização dos seus vizinhos e familiares que começavam a focar o olhar sobre as potencialidades de desenvolvimento que estavam ocultadas pela condição anterior. O levantamento de novas situações e a formulação de problemas concretos decorrentes da integração ou do isolamento de outras crianças desencadeava mais e mais respostas positivas de comunidades.

A invenção do lugar para a diferença na Escola enquanto lugar de normalização

Em 1979 as primeiras crianças começaram a atingir a idade de ingresso na escolaridade obrigatória e algumas escolas públicas da comunidade da sua residência, abriram as suas portas aos grupos de Jardim-de-infância que incluíam as crianças com mais necessidades de atenção individualizada.

As crianças foram recebidas voluntariamente por professoras experientes que aceitaram o desafio de pensar como e o que ensinar na escola, além da leitura, da escrita e do cálculo, tendo em conta que o grupo incluía crianças com disposições e recursos cognitivos e sociais muito diferentes.

Para apoiar estas professoras na sua experiência, alguns elementos do grupo base se organizaram - interdisciplinar e interprofissionalmente - como Grupo de Apoio ao Desenvolvimento da Criança. A partir deste espaço foi desenvolvendo modos próprios de abordagem dos problemas emergentes na comunidade, procurando suporte científico e técnico junto de especialistas de serviços diferenciados, inexistentes na comunidade.

Este grupo constituiu a base da criação de vários momentos e contextos locais de comunicação e tomada de decisão entre profissionais, pais e outros agentes da comunidade; criavam o “lugar” necessário para a reconstrução de respostas antigas para problemas novos, com que as escolas passaram a conviver positivamente a partir do momento em que a integração das crianças portadoras de deficiência tornou mais visível e pronunciável a diversidade de níveis de desenvolvimento, experiências sociais e culturais vividas em diferentes contextos materiais e de socialização, presente nos grupos.

No Grupo de Apoio ao Desenvolvimento da Criança havia uma médica, uma educadora e uma assistente social responsável por estruturar e dinamizar estes espaços/momentos de comunicação, em que participavam professores das turmas e professores de apoio, bem como pais e, em alguns casos, as próprias crianças envolvidas nas situações em causa. A reunião destes elementos, acontecia em resposta a pedidos de ajuda na resolução de problemas emergentes de relacionamento das crianças entre si, ou relativamente às regras, aos conteúdos de ensino/aprendizagem ou com as actividades que, até aquele momento, regulavam as relações e a comunicação no contexto da sala de aula.

A reunião deste grupo era solicitada também em momentos de avaliação/planificação do que ensinar e aprender em salas de aula além da leitura, da escrita e do cálculo. Neste caso, as soluções eram procuradas nas respostas de perguntas tão simples quanto as seguintes:

 que problemas “nos” preocupam?

 o que a criança faz com o que, onde, quando e com quem?

 o que mais a criança pode saber e fazer para participar mais vezes e durante mais tempo, em contextos de interação com um maior número de pessoas, potencialmente significativas para as suas vidas ?

 quem, como, onde e quando pode ensinar o que ela precisa aprender ?

 que recursos existem ou poderiam ser criados para facilitar esta aprendizagem e melhorar as condições de relacionamento entre todas as pessoas implicadas neste processo educativo e na vida da criança ?

A experiência e as memórias deste “trabalho social” local bastante delicado, foi sendo partilhado entre grupos locais e entre estes e outros grupos de professores de fora da comunidade, que estavam a tentar também a integração das crianças que eles consideravam especiais. No final de cada ano o conhecimento social e pedagógico, que era assim reconstruído e enriquecido no face a face, era comunicado em Seminários anuais em que participavam outros profissionais da comunidade, alguns pais e especialistas convidados das áreas da saúde, da educação e formação, da segurança social e/ou intervenção comunitária. Nestes seminários surgiam a cada ano diversas “agendas” de formação e de intervenção local

Em todo este processo houve preocupação de envolver os meios de comunicação social, designadamente na divulgação dos encontros anuais que decorreram entre 1978 e 1986. A projecção social destes encontros de professores em torno da experiência de integração das crianças com deficiência mental em Jardins de Infância e nas Escolas, tornou a Experiência de Águeda conhecida de especialistas de serviços oficiais, de Universidades e, através deles, de peritos da OCDE e UNESCO e de investigadores estrangeiros ( Genéve, Parma, Nebraska ).

A visibilidade pública e externa da Experiência foi, sem dúvida, um dos factores que validou e acreditou localmente as experiências pedagógicas que se construíam contra a discriminação e segregação das crianças e jovens com deficiência da comunidade. Outro factor foi a produção e divulgação continuada de “imagens humanas” da intervenção, devidamente informadas por dados actualizados de avaliação que fundamentavam as decisões e as práticas em curso.

Esta divulgação não visava apenas os profissionais dos serviços de saúde, educação ou de protecção social, mas também outros atores locais sem formação específica, investidos da responsabilidade na promoção de bem estar de toda a população. A intervenção social foi sendo assim traduzida em diversas linguagens conforme as disposições políticas, sociais ou religiosas ou a escala de acção ( lugar, Freguesia, Município, Distrito, País ...) de quem lia e interpretava a experiência narrada, como construção de soluções éticas para problemas práticos de inclusão de todas as crianças e respectivas famílias na comunidade.

Construindo a oficialidade das práticas no interior do Estado Providência

A consolidação de todo este processo não teria sido viável se não tivesse havido a preocupação de o situar numa esfera pública mais ampla do que a Comunidade ou da acção dos profissionais e da própria Bela Vista Centro de Educação Integrada enquanto sede do grupo que animava o movimento. Não teria bastado o cuidado de reflectir sobre as experiências em curso, com os pais e profissionais directamente envolvidos na acção para validar ou acreditar uma experiência pedagógica investida como intervenção para a transformação da realidade social que excluía as crianças que pretendíamos incluir. Isto foi realmente possível entre meados dos anos 70 e 80, no período a seguir à Revolução que reclamava a democratização de toda a sociedade, pela sociedade.

A medida em que os anos 80 avançavam, a responsabilidade emancipatória do Estado nos diversos âmbitos da sua acção, começou a ser formalizada e regulada não só internamente mas também pelo exterior e por instâncias internacionais. Este foi o chamado ”período de normalização” das políticas sociais públicas em Portugal ( cf. Rodrigues,F; 2000)

A experiência de integração na escola pública de crianças portadoras de deficiência, até aí dinamizada na e pela comunidade, exigia agora ser formalizada e sistematizada como política educativa, orientando-se por critérios tendencialmente universais, portanto menos particulares e locais. Esta oficialização da acção do grupo abriu espaço para o diálogo com Serviços do Estado dos quais dependia também o provimento de recursos humanos e financeiros para manter respostas criadas na relação directa com novas situações-problema, cujas soluções tinham sido “inventadas” com os recursos existentes.

Até 1981 o argumento do combate à segregação das crianças e suas famílias tinha sido suficiente para que a Divisão do Ensino Especial do Ministério da Educação tivesse podido vincular quatro professoras à Bela vista, para desenvolver as experiências de integração de crianças com problemas graves de desenvolvimento/comunicação/comportamento no espaço de sala de aula. Neste segundo momento esta acção pedagógica no interior da escola pública, passou a constituir um problema legal que era preciso resolver.

O Estado e a Comunidade precisaram combinar esforços para instalar localmente uma estrutura jurídico administrativa e pedagógica pública que enquadrasse esta acção e outras desencadeadas e apoiadas pela Bela Vista e pelo Grupo de Apoio ao Desenvolvimento da Criança. A criação de uma Equipa (Municipal) de Educação Integrada, veio enquadrar, além do apoio na sala de aula, o apoio domiciliário a crianças com alto risco de consolidarem atrasos de desenvolvimento, sem acesso a Jardins de infância e o apoio itinerante às crianças com deficiências, sensorial e motora, que era prestado por professores especializados que faziam parte da Equipa (Regional) de Educação Especial, cuja acção era facilitada com transporte, salas e algum material da Bela Vista.

O Estado cumpria assim o que era prometido pelo artigo 71º da nova Constituição da República: “realizar uma Política Nacional de prevenção, de reabilitação e de integração dos deficientes, a desenvolver por uma pedagogia que sensibilize a sociedade quanto aos deveres de respeito e de solidariedade para com eles e assumir o encargo da efetiva realização dos seus direitos, sem prejuízo dos direitos e deveres dos pais e tutores”.

Foi neste contexto em que a Comunidade e o Estado assumiam a responsabilidade de garantir a educação como direito das crianças enquanto cidadãs e membros da comunidade, que a política de Educação Especial em Portugal passou a desenvolver-se para além do apoio financeiro, destacamento de professores e acompanhamento técnico pedagógico a alguns Centros de Educação Especial que existiam “residualmente” antes da Revolução.

Nos anos 80, a política de Educação Especial criou algumas Equipas de Educação Especial, com professores especializados que deveriam garantir apoio à integração de crianças com deficiências sensoriais e motoras em grandes áreas geográficas e passou a integrar muitas acções promovidas por pais e por profissionais generalistas comprometidos com a mudança social. Um pouco por todo o país surgiam grupos que, em nome da luta contra a segregação social ou a favor da educação especial, criavam respostas sócio-educativas para as crianças discriminadas por diferenças de desenvolvimento e/ou comportamento. Entre estas respostas estavam o Movimento/Experiência de Águeda, as Cooperativas de Educação e Reabilitação de Crianças Inadaptadas,(CERCI’s) e os Centros de Paralisia Cerebral. Pouco a pouco, estas respostas foram integradas oficialmente numa rede ou conjunto de serviços que deveriam responder, em nome do Estado, pela integração daquela população.

A tomada de consciência coletiva da diversidade de respostas emergentes, reconhecidas no campo das políticas educativas designadas como “Educação Especial”, teve dois momentos fortes: o Congresso de Educação Especial, em Lisboa em 1979 e o Ano Internacional da Pessoa com Deficiência.

O reconhecimento mútuo de propostas diferentes e por vezes antagónicas para esta problemática social, abriu espaço para um debate alargado de ideias sobre a integração, entendida por uns como meio e por outros como objectivo de práticas de educação especial apoiados em sistemas de categorização de “incapacidades” e/ou “inadaptações”, entendidas como barreiras à integração social.

Este debate aberto de ideias sobre as diversas formas de promover o direito à educação das crianças e jovens com deficiência foi bastante facilitado pela acção de alguns Atores-Chave na análise de necessidades e provisão do atendimento a crianças e jovens portadores de deficiência. De entre estes destacamos a Chefe de Divisão do Ensino Especial e o Director do Centro de Desenvolvimento da Criança do Hospital Pediátrico de Coimbra que representavam para os pais e profissionais a criação pelo Estado de oportunidades educativas e o acesso ao diagnóstico, encaminhamento e apoio às crianças e famílias nas Comunidades.

O papel de ambos foi fundamental para alimentar o diálogo entre actores locais que estavam igualmente comprometidos na reinvenção de espaços de inclusão das crianças, excluídas como “diferentes” no interior das suas comunidades. A grande proximidade que cada um mantinha com os atores que dinamizaram cada tipo de resposta local, permitiu que o enquadramento jurídico-administrativo e a dotação de recursos humanos, logísticos e financeiros não pusesse em causa nenhuma das acções em curso, assegurando antes a organização local de respostas diferentes que deveriam ser pensadas em conjunto, em grupos ou equipas locais constituídas como co-responsáveis por desenvolverem recursos e redes de suporte comunitário às famílias e escolas.

A tradução da mudança social na língua e cultura da Educação Especial oficializada

Para compreender como, em Portugal, a Educação Especial foi sendo construída como Educação Integrada até poder reclamar a Escola Inclusiva, nos parece fundamental considerar que na sua raiz está o drama e o empenho de pais que foram capazes de sensibilizar e comprometer profissionais da sua comunidade na “causa” dos seus filhos privados do direito à educação, protecção e inserção social. Não se pode ignorar também que estes mesmos profissionais eram, na sua maioria, generalistas mas também militantes na mudança das condições de vida das populações e como tal estavam predispostos a considerar perspectivas de acção alternativa àquelas em que e para que foram formados no regime político deposto.

Por outro lado, parece importante considerar também que, principalmente os especialistas que estiveram envolvidos desde o início na mobilização dos pais e das comunidades locais, partilhavam com os seus parceiros generalistas o pressuposto de que “o que” estava em causa, nos casos que analisavam, não eram apenas barreiras - físicas, afectivas, cognitivas - colocadas pela deficiência. O ambiente social que se vivia naquele momento dava muita visibilidade e voz à questão da igualdade de direitos sociais. A questão das barreiras não era entendida como construção unilateral mas como construção histórica e social da desigualdade e da separação entre indivíduos e grupos sociais.

Deste ponto de vista, as barreiras eram vistas como problema não apenas individual mas social, que incluía o modo como as famílias, as escolas e as comunidades se relacionavam com as pessoas portadoras de deficiência. O olhar e o discurso que mediava o diálogo dos especialistas com os pais e com outros agentes da comunidade, era influenciado no sentido de relativizar o que seria o alvo da sua atenção e actuação - a anormalidade de características ou funções ou o desvio de padrões convencionados de desenvolvimento, funcionamento, etc.. Como o neuropediatra que atrás referimos como actor-chave destas mudanças:

Nessa altura os técnicos eram menos, havia poucos e nós suprimíamos um pouco todo protocolo. A maior parte das crianças que observávamos precisavam era de apoio educacional. Passada a fase de diagnóstico, precisavam era de intervenção educativa de modo que o papel do técnico diferenciado era na fase do diagnóstico, depois a intervenção era local. Os planos individuais eram realizados pelos pais em casa; eram feitos em caderninhos que os pais levavam para casa para registar o que a criança fazia e que levavam algumas indicações para o que fazer para atingir a etapa seguinte. Não era pelo técnico, era pelos pais, eles os traziam escritos e as dúvidas apareciam. Com isto minimizávamos a deficiência, o problema e dávamos poder. Valorizar o que é bom, era uma filosofia social. Nós tínhamos que estar disponíveis para os pais poderem estar a vontade e haver a possibilidade de fazerem a sua proposta. Havia respeito pelas famílias e pelas Comunidades.

No pós 25 de Abril, havia um certo poder local; havia Comunidades que estavam a organizar-se e a responder às suas necessidades e preocupações e uma dessas era a criança deficiente…As pessoas estavam mais livres, muito mais conscientes do seu valor pessoal e da sua capacidade…construíam escolas, fizeram estradas, centros de dia e essas coisas tinham, na verdade um cunho diferente. Não se estava a espera do Estado e o próprio Estado achava que as pessoas tinham capacidade de fazer. As soluções eram encontradas localmente” ( Luís Borges; 2001)

Era na confluência deste processo de mudança social que se encontravam também os analistas e decisores de políticas sociais e educativas, e neste caso, da Educação Especial. Era este conjunto de atores e de relações sociais que, embora desigualmente posicionados no interior do Estado e relativamente às comunidades, partilhavam entre si a aspiração de prestar serviços no quadro de um projecto de sociedade que prometia a emancipação colectiva, contra a regulação hierárquica de práticas e discursos que se desejavam novos e reconhecíveis como políticas públicas.

Em 1981 afirmava-se a partir do centro de decisão das políticas de educação especial que em Portugal :

existem elementos (de ordem sociológica e cultural) muito positivos que interessa a todo custo preservar…(designadamente) as imensas possibilidades de integração familiar e social que são dadas a tantas crianças e jovens com deficiência, especialmente nos meios rurais e em alguns bairros urbanos, em que a vida Comunitária e a entreajuda constituem realidades quotidianas …e em que escolas e professoras com ajuda pedagógica, ou sem ela, aceitam integram alunos com deficiência …coma intensa participação dos pais na organização das estruturas educativas para os seus filhos” ( Bernard da Costa; 1981).

A seguir aos dois primeiros anos dos anos 80, período que como atrás referimos é reconhecido como fase da normalização, todo este processo de reconstrução social baseada na tomada de consciência dos direitos das pessoas portadoras de deficiência, dos profissionais da base e das comunidades passou a ser traduzido em outras linguagens, que serviam outros modelos de educação e de integração deste grupo social.

Para assumir-se como parceiro de diálogo internacional, Portugal recorreu a peritos de instâncias internacionais como observadores externos num momento em que a Educação Especial estava na agenda de países centrais, como os Estados Unidos e a Inglaterra, com a publicação da PL 94-142 em 1977 e a Educational Act em 1981.

Embora Gulliford (1988) considere que as mudanças no campo da educação especial fossem resultado da acumulação de conhecimentos sobre práticas de diferenciação de métodos de ensino e de aprendizagem segundo diferentes tipos de deficiência, da descoberta da natureza das deficiências, das estratégias de ensino, do currículo e da implicação dos educadores de ensino especial em acções destinadas a crianças de idade pré-escolar e de jovens em idade pós escolar, outros autores analisam estas mudanças como resultado de tensões e contradições sociais que tornaram problemático o encaminhamento das crianças e jovens para meios restritivos.

Os argumentos que põem a tónica na mudança de filosofia social, referem que foram os estudos do comportamento e da aprendizagem que puseram em causa o investimento social que se restringia a manter as condições adaptativas de sujeitos que poderiam valorizar atingir um funcionamento social autónomo ( Smith e Weisworth;1975). Outros chamam a atenção para os aspectos emocionais, políticos e humanos do “handicapismo” ou seja, a disposição de rotulagem e classificação das pessoas por categorias de deficiência sem qualquer ligação com interesses científicos, educacionais ou administrativos (Heward e Orlansky;1984). Lembram estes autores que já em 1972, afirmava que “ a educação especial muitas vezes foi um processo de exclusão mascarado em processo de recuperação de crianças que causavam dificuldades ao sistema educativo e que eram encaminhadas para uma cadeia de serviços de ensino especial onde permaneciam o resto das suas vidas”.

Embora Portugal reconheça muitas das suas razões e motivos de mudança nesta discussão sobre os efeitos da categorização e encaminhamento das crianças, o certo é que as raízes e trajectória históricas, as condições materiais e o contexto social que configurava este debate eram bastante diferentes.

a Educação Especial não chegou, entre nós, a ser afetada por determinados problemas que se puseram ou podem encontrar em países mais desenvolvidos e que consistem no exagerado tecnicismo com que a criança com deficiência foi encarada, levando a uma excessiva discriminação por categorias e a interferência de inúmeros profissionais no seu processo educativo..” ( Bernard da Costa; 1981)

Um elemento importante a considerar é que naqueles países, o problema da educação em regime de integração ou segregação, era debatido em torno do currículo e aos meios de acesso ao mesmo. Em Portugal este debate sobre o “que” educativo era muito precoce se não mesmo ausente ainda, porque os educadores tinham sido socializados no interior de um sistema educativo altamente centralizado, em que a reprodução social e ideológica era assegurada exactamente através da uniformização do currículo oficial e da regulação da sua aplicação local.

A orientação pedagógica que propunha a elaboração e contratualização de Planos e Programas Educativos individuais, estruturados por áreas desenvolvimentais e de competências avaliadas individualmente, parecia tão difícil de implementar como a organização das práticas e dos recursos educativos segundo o modelo conceptual desenvolvido no Warnock Report. Os recursos disponibilizados para o ensino especial não permitiam responder ao número crescente de alunos encaminhados para o ensino especial, por dificuldades de aprendizagem ou de comportamento.

Naquele mesmo período, em outros pontos do sistema educativo a manutenção das taxas de repetência e abandono escolar justificava a afirmação de que “a Escola portuguesa se dirige ao aluno médio idealizado, ignorando deliberadamente os antecedentes, hostilizando se não mesmo punindo as crianças diferentes”( Rau;1981).

Enquanto que num ponto do sistema educativo se discutia a legitimidade dos processos de encaminhamento das crianças para meios que manteriam as crianças separadas da comunidade e com acesso mais ou menos condicionado à confluência da vida comunitária, no outro discutia-se como manter as crianças na escola, cumprindo a obrigação pública de democratização das oportunidades sociais através da educação a todas as crianças.

Esta tensão contraditória foi vivida pelo grupo base do Movimento de Águeda que participou activamente na discussão sobre as implicações do “rótulo” na integração social das crianças como problema moral prático. Defrontava-se também com a situação de marginalidade de algumas crianças que eram mantidas fora escola, até que o atestado de deficiência pudesse requalificá-la como aluno com necessidades educativas especiais.

Em muitos momentos, os profissionais se sentiram pressionados e constrangidos pela exigência de utilização de linguagens, procedimentos e instrumentos pedagógicos e administrativos que obedeciam a um modelo externo que, para mais, dificultava o diálogo com os pais e com outros parceiros habituais da comunidade.

Para manter a dinâmica integrada e integradora de actores e acções que respondiam aos problemas das crianças, das suas famílias e das escolas, o grupo base teve que resolver muitas contradições resultantes da sua inserção no subsistema de educação especial, enquanto parte de um sistema educativo que se ia definindo por pareceres e políticas internacionais.

A Construção de espaços de reconhecimento entre grupos subordinados

Em 1985 o grupo confrontou-se com a necessidade de suportar algumas contradições com a sua própria filosofia de intervenção para poder responder a mais de 200 crianças que, estavam sinalizadas para apoio da Educação Especial. As dificuldades de ensino da maioria destas crianças eram atribuídas a possíveis disfunções psicológicas das mesmas. O que era pedido ao grupo do movimento era que traduzisse como problema individual o que reflectia a dificuldade que os professores sentiam em manter todas as crianças implicadas em aprendizagens que deveriam ocorrer ao mesmo ritmo e com os mesmos conteúdos e que se impunham pela exigência de cumprimento estrito de regras por todo o grupo e por todos os grupos da escola. Caso contraries, estas crianças, que pertenciam maioritariamente a famílias que ocupavam as piores posições sociais na comunidade e que tinham menores condições de vida e de acesso às oportunidades que a escola se propunha a oferecer a todos, seriam privadas do direito à educação pelo grupo havia lutado na década anterior.

Em 1986, um estudo desenvolvido pelo grupo sobre as causas da mortalidade infantil em Águeda, denunciava o isolamento e o abandono em que viviam as famílias destas crianças, que sustentavam as taxas de mortalidade, de morbilidade infantil e de risco social a descoberto dos serviços da Comunidade.

Assim, entre 1982 e 1989 o grupo arriscou construir uma relação diferente com as cerca de 500 crianças que viviam situações difíceis e prolongadas de insucesso e absentismo escolar. Para evitar atestar como deficiências o que eram dificuldades dos professores e da escola e necessidades de atenção e de ensino das crianças, os educadores mais implicados com o movimento começaram a trabalhar com estas crianças fora do tempo da escola.

Estes educadores usavam o seu tempo e recursos de intervenção para reunir e descobrir com estas crianças, como ajudar outras que ficavam sozinhas a trabalhar e a cuidar dos irmãos mais novos em casa ou na rua. A ideia de criação de grupos de amigos e de soluções para as barreiras que os impediam de aprender na escola o que queriam saber para participar na comunidade, foi sendo comunicada, criança a criança, através do diálogo ocasional com as que eram reconhecidas na escola, por dificuldades em fazer amigos ou em aprender.

Os educadores da Equipa de Educação Especial passaram a marcar encontros e a desenvolver actividades cada vez mais sistemáticas, mas procurando apreender o que para elas era mais significativo do ponto de vista dos grupos que se iam constituindo a cada semana. Ocupando lugares descobertos por elas ou com elas, nas suas comunidades, os educadores foram ajustando as suas estratégias às condições de casas velhas abandonadas, de coretos das festas e também de átrios das escolas, de salas de espera dos centros de saúde ou de salões das Juntas de Freguesia.

A actividade de muitos destes grupos consistia na preparação conjunta de refeições para as crianças que ficavam sozinhas com os irmãos menores, na organização de festas e encontros com outros grupos. Alguns aproveitavam o material de desperdício das fábricas onde os pais trabalhavam e transformavam este material em recursos para a angariação de fundos para fazer melhorias na sala onde reuniam ou ainda para concretizar algumas actividades. A dinâmica e a inserção destes grupos na confluência da vida comunitária, criou condições para o envolvimento dos pais e de outros actores locais que não faziam parte dos notáveis do lugar.

Mais uma vez foi importante a visibilidade deste trabalho, construída por estudos universitários e por seminários e encontros locais.. Criou-se, assim, uma outra base social que abriu espaço para o reconhecimento social local dos grupos e para a negociação de recursos e de possibilidades de enquadramento jurídico, administrativo e social da acção que se ia consolidando como trabalho social. Em 1993 estes grupos deram origem a nove novas associações que passaram a garantir atendimento à infância, com prioridade a crianças e famílias em desvantagem e às zonas mais desfavorecidas do Concelho. Os educadores destas instituições estão hoje organizados numa rede que inclui muitos outros Centros sociais infantis e profissionais de serviços de Saúde preocupados com assegurar a atenção e apoio a todas as crianças do Município.

Quando analisamos o percurso e a narrativa da intervenção do Grupo de Águeda, podemos apreender o quanto foi importante a oficialização da sua acção pela criação da Equipa de Educação Especial. No entanto, esta inserção teve custos. À medida em que se integraram como agentes do sistema educativo, que nos anos 80 entrou no período de normalização, a sua acção se foi tornando permeável a discursos que sugeriam práticas que, por sua vez , requeriam um modo de pensamento e também recursos que o Estado Providência não podia prover em Portugal.

A recusa de situar as causas das dificuldades escolares adentro de crianças, tornou-se um problema difícil de resolver entre subsistemas que dividiam entre si a responsabilidade pela educação de crianças portadoras de deficiência, crianças portadoras de necessidades educativas especiais e de “todas as crianças”. Por outro lado, a própria linguagem e os procedimentos de que dependia a possibilidade de mobilização de cada tipo de serviço ou dos recursos de apoio sócio-educativo, tornavam ainda mais visíveis e pronunciáveis as “diferenças” das crianças que a comunidade, as escolas e por vezes as próprias famílias, rejeitavam e sancionavam negativamente, como obstáculos a integração. À medida em que os programas educativos individuais passaram a ser construídos segundo a lógica de uniformização de procedimentos e de critérios de avaliação, o Grupo foi sendo confrontado com uma série de contradições por si resolvidas e foi mantendo a consciência de que corria alguns riscos.

O que a narrativa do Grupo de Águeda nos dá conta é de que, estando embora consciente dos riscos inerentes à criação de espaços de inclusão para os grupos que a comunidade designa como excluídos para os integrar como seus, esta foi a solução encontrada para fazer face ao efeito de muitas outras relações que se definiam em outros espaços estruturais relativamente dependentes do sistema económico e das relações inter-Estados.

Num momento em que a retórica social se socorre do conceito de Escola Inclusiva para ocultar a desigualdade estrutural que se traduz em desigualdades de oportunidades entre crianças na escola e em que se encaminham as crianças para serviços sociais e educativos periféricos ao sistema educativo, enquanto se investe na “excelência acadêmica” ou no ensino de competências que visam a concorrência no mundo laboral, importa tomar aqui as palavras de uma pessoa cuja trajectória incorpora toda a luta entre progressos e retrocessos no modo como a sociedade portuguesa investe a educação das pessoas portadoras de deficiência:

o que não é possível é aceitar uma educação inclusiva que não contemple as características fundamentais que a caracterizam: a escola para todos; que não rejeite nenhuma criança da sua área de intervenção; que não se assuma como primeiro passo para a inclusão social; que não olhe a diversidade de barreiras que se podem opor à participação na aprendizagem e sobre as formas de as poder superar; sem o enquadramento de todas as crianças num grupo heterogéneo e, em simultâneo, um atendimento à especificidade de cada uma; sem o reconhecimento de que o centro da intervenção pedagógica se situa na escola e nas estratégias de sala de aula e que não é possível relegar alunos para outros sectores tal como o sector social” ( Bernard da Costa; 2004).

O que este grupo encontrou, através da exploração das margens de liberdade e de autonomia procuradas no entendimento das contradições assumidas, partilhadas e enfrentadas na relação com múltiplos atores sociais, posicionados em diferentes escalas de ação social da Comunidade e do Estado, foi a possibilidade de transformar, crítica e efectivamente, os recursos que eram providos para a Educação Especial, em contextos sociais animados por subjectividades individuais e colectivas que tornaram a Educação Especialmente Inclusiva. Inclusiva das inúmeras diferenças que enriquecem a possibilidade de nos construirmos como Comunidade humana, contra o risco de mercadorização da vida!

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1 Bela Vista era o nome deste Jardim-de-infância, que foi sendo desenvolvido como Centro de Educação Integrada, um pouco na continuidade da integração de algumas crianças com atrasos graves iniciada num pequeno espaço para a infância numa das localidades do Município.

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