![]() |
QUEREMOS:
VISIBILIDADE
SUSTENTABILIDADE
APOIO JURÍDICO
RESPEITO
AFECTO
TRABALHO
FUTURO
|
-->
Arca da Velha
![]() |
QUEREMOS:
VISIBILIDADE
SUSTENTABILIDADE
APOIO JURÍDICO
RESPEITO
AFECTO
TRABALHO
FUTURO
|
Parabén ICE!
resiliência...
fantásticas, solidárias, criativas, lutadoras.
NotICEasfoi marcante para nós que o preparámos e vivemos.
vínculo envolvendo os presentes e quem já se foi.
partilhamos a nossa lucidez e restringimos a cegueira.
da centralidade.”
no início de 2005, morreu.
acaba com a vida, não com uma relação”.
potencia e cria novos espaços, novas esperanças, novos mundos...
Parabéns ICE !
8-7-2014
A Câmara Municipal de Santiago do Cacém, numa parceria activa com a Junta de Freguesia de Santo André, o ICE – Instituto das Comunidades Educativas e o ICN – Instituto de Conservação da Natureza, empreende um projecto que contribui para uma imagem valorizada do Município, bem como para a defesa e promoção de um ecossistema de espécies naturais e relações ecológicas específicas.
A Quinta de Educação e Ambiente na Lagoa de Santo André, concelho de Santiago do Cacém, é um espaço onde se juntam a Educação, a Cultura e a Cidadania.
A zona da Reserva Natural das Lagoas de Santo André e da Sancha proporciona o envolvimento pedagógico das comunidades educativas onde a Quinta pretende ser, para todos os que a procuram, um espaço onde se experimenta uma cidadania pro-activa e o envolvimento/reflexão nas actividades torna pertinente as aprendizagens.
>> Protocolo de colaboração CMSC/ICE/ICN (disponível brevemente)
Objectivos:
- Dar a conhecer os projectos desenvolvidos em todas as escolas do concelho e instituições educativas;
- Promover a articulação entre diferentes graus de ensino, entidades e outros actores educativos;
- Contribuir para
- Valorizar os projectos educativos das escolas e promover relações de parceria.
Entrei na perspectiva de tentar perceber como as coisas se organizavam à minha volta e nos espaços que ia ocupando – na escola onde desenvolvia o meu trabalho e nas reuniões inter-equipas onde tentava perceber o que era o ICE - foi uma fase de aprendizagem muito intensa, porque estava a viver coisas novas, realidades e perspectivas que me questionavam.
A primeira questão orientadora pode formular-se deste modo: Pode a Escola educar/desenvolver a comunidade? Ou, mais específicamente: – A ESCOLA, enquanto estrutura exterior – vista como Sistema Educativo/ enformada pelo exterior, isto é, por uma política de educação que é Nacional, não enformada pela comunidade local - pode desenvolver essa comunidade? É uma questão que não tem uma resposta única, as coisas não são lineares... O que é, de facto, o “Local” ? A interpretação do “Local” é uma construção que depende do ponto a partir do qual se age.
Para o Estado, o local é Portugal... Para a Europa, o local é Europa... Se nos colocarmos numa perspectiva do Universo, a Terra é um “local” dentro desse Universo. Nesta perspectiva o local é onde agimos e a nossa capacidade de acção está directamente ligada ao lugar que ocupamos. De facto, a Escola não se pode considerar completamente exterior ao local, à comunidade...no entanto os processos são enformados pelas directivas centrais e não pelas redes de relações e significados locais. O professor que personaliza a escola no local, é organizado por uma estrutura central, não pelas relações locais A ESCOLA ao tocar as pessoas não é nula, provoca mudança na comunidade em que se insere...mas não se trata de uma dinâmica de desenvolvimento daquele espaço, não se trata de um processo de “Desenvolvimento Local”. Na minha concepção, o “Desenvolvimento Local” é mais a dinâmica das pessoas, das suas relações dentro do espaço e do modo como essas relações se organizam a partir da forma como interpretam o exterior. Como é que se pode alterar a situação? Como é que a Escola pode trabalhar o meio, pode não investir na formação do aluno mas mexer com a comunidade? Pode a escola ter, como campo de acção, a própria a aldeia? Desde cedo percebi que tinha de sair da escola e criar uma rede à sua volta que influenciasse a sua estrutura, o que não é fácil. Os processos de aculturação da relação Escola/Comunidade têm sido no sentido desta preparar os seus membros para actuarem na sociedade em geral e não a pensarem-se e pensar o local onde vivem. É criada a ideia que todos podemos fazer muitas coisas num local que não conhecemos ou simplesmente conhecemos intermediados. Nesta perspectiva o saber está desligado da acção. Para alterar isto a minha ideia seria fazer algo que não fosse escolar e centrado aí, convidar a escola a participar. Tentar um processo em sentido contrário, da comunidade para a escola. Desenvolver caminhos que conduzissem a Escola a processos de auto-questionamento, de aprendizagem. O que poderia ser mobilizador de uma identidade local? Memórias, desejos, afectos? A estratégia encontrada traduziu-se na organização da Feira de Artes e Cultura, onde moleiros, paliteiros e todos os que estão ou estiveram ligados à construção da identidade de Penacova podiam estar e participar com estatuto de igualdade em relação à escola. A Feira de Artes e Cultura, desenvolveu-se como espaço de mostra e auto reflexão que permitiu à comunidade local reconstituir a sua própria imagem, a forma como se vê... como chegaram ali e como se podiam imaginar a partir dali? Fez-se a Feira, no princípio virada para dentro. O que é que havia? Houve um esforço de escuta, de interconhecimento. As pessoas falavam da cultura como se já não existisse, como se fosse memórias. O interessante era como dar a essa memória, um novo sentido, um sentido de futuro? Assim, começámos a convidar pessoas do exterior de forma a quem estava no local se revisse com os olhos de quem vem de fora. É este, tal como vejo, o fio condutor do Desenvolvimento Local: o que o local pensa do exterior é o que permite organizar o local - sem o exterior, o local organiza-se num relação de fechamento sobre si próprio. 2 - COVAS DO MONTE : A ALDEIA E O DESENVOLVIMENTO LOCAL Foi já com a bagagem do aprendido em Penacova que “parti” para Covas do Monte, uma aldeia onde já não havia escola. O início é o mesmo: começando o envolvimento com as pessoas, tentando aproximar-me do local de forma a que as pessoas aí me vissem como um deles - passando muito tempo a ouvir e a falar, não demonstrando ter soluções – se viesse munido com a solução, isso seria criar mais dependências . Como produzir um processo de auto-organização a partir da cultura local e dar-lhe um sentido? A importância de redes exteriores à aldeia. O local é constituído por um conjunto de relações interiores e com inter-relações exteriores – neste caso, eu era um “exterior” que através de um processo de aproximação me vou transformando em alguém de pertença. Temos, por um lado, o imaginário, as vontades, as memórias, os sonhos das pessoas que estão no local... do outro lado, a possibilidade de envolver pessoas exteriores. As pessoas “do exterior” vão entrar no processo como factor de reorganização do Local, na medida em que lhe trazem um novo sentido. As pessoas não se organizam para nada, organizam-se com um sentido: se começam a chegar pessoas à aldeia, e procuram coisas que a aldeia tem, então vão dando a percepção de novos sentidos à aldeia e para quem a habita. Há uma reorganização do espaço em função, até, de algum retorno económico. Mas como conseguir estabelecer pontes entre quem “está” e quem “chega”? A estratégia do “Ouvir” não se fica só pelo ouvir, numa segunda fase passa-se mais para a conversa, introduzindo factores de organização nessa conversa. Em Covas do Monte, um primeiro momento organizativo deu-se em torno do lagar: eu ouvia histórias do lagar, memórias e gostos... então porque não reconstituir o lagar? Para as pessoas da aldeia, a ideia do Lagar não tinha um valor objectivo, apenas afectivo. Mas quando pessoas de fora chegaram e começaram a ajudar a reconstituir o lagar, elas vieram dar um novo sentido à sua reconstrução – passou a ser uma realidade presente, algo que tinha valor, não era já apenas uma memória do passado transformou-se num valor simbólico da aldeia. Assim, toda a escuta e posterior conversa, foi um processo de eco-organização. Uma reorganização que veio dar novos sentidos às memórias, aos patrimónios culturais, dando-lhe um significado, um valor, um futuro. Estratégia fundamental: conseguir alimentar redes. Eu não sou apenas o que sou, nem o que sei, sou também um conjunto de relações. Salto de um campo mais institucional, para as redes: não me envolvo apenas eu , mas tudo o que está ligado a mim, e este é também o meu processo de desenvolvimento. Compreender isto foi um salto na intervenção: Em Penacova não tinha, ou não tinha consciência, desta rede de conhecimentos, nem redes de organizações que me permitiram, aqui em Covas do Monte, mobilizar públicos... Nem todos os públicos são mobilizáveis para todas as situações. Eles implicam-se seguindo causas que perseguem. Temos sempre que ter essa percepção e tocar aqueles que nos parecem ser mais favoráveis. O grupo dos auto-caravanistas é paradigmático – pela simples possibilidade de ficarem na Aldeia mais que um dia, passarem a noite – podem desenvolver contacto muito próximo, relacionamentos íntimos com pessoas do local... amizades, passaram a ter uma importância fundamental no imaginário daquelas pessoas e na sua reorganização do sentido de futuro O mais complicado não é trazer estes públicos, não é trazer o exterior...o mais complicado é como é que o Local se reorganiza. Não se trata de uma complicação do ponto de vista material, mas sim cultural. Uma reorganização da cultura local pressupõe tempo e processos de liderança. Não há maneira de alterar nada sem alguém que vá reassumindo o processo... há que haver alguém que ponha os outros a fazer e não que faça por eles, que dinamize poderes e não relações de dependência. O maior obstáculo: se entrarmos em sistemas formais, eles são tão complexos que não é possível a locais de pequena dimensão sobreviver no sistema. Quer queiramos quer não, os locais já foram tão permeáveis a um padrão globalizante/ especializante, que têm tendência a organizar-se em função de um produto. A ideia que têm é a que para se desenvolverem é conseguir meter no mercado produtos feitos e transformados... Ora, em espaços de pequena dimensão a especialização é justamente a diversidade... especialização é morte, nesses espaços. Mas o que está instalado é a cultura dos produtos: querem fazer um produto para vender, mas neste pequenos locais a produção é tão restrita que não é rentável. O que se tem de meter no mercado é o processo que leva a esse produto – ao adquirir o produto, o público vai adquirir todo um processo cultural e isso tem outro valor: esse processo não existe for do local, para usufruir temos de ir ao Local, o processo é intransmissível. É no processo que está a cultura e a identidade das coisas e isto é o que me leva a ir ao Local e não adquirir numa prateleira de um supermercado. Em Covas do Monte o processo passou por fazer das colheitas um momento atractivo para a aldeia. Como é que aquilo que fazem por necessidade, por trabalho, pode ser para outros, para o públicos que vêm do exterior, lazer de tal forma que pagam para participar? Outra estratégia passou por transformar o trabalho de pastoreio num percurso pedestre... o trabalho do pastor passa a ser uma mais valia em função da captação de públicos. Voltando a Penacova, dou um exemplo que ilustra bem este conceito. Ao procurar valores para animar a Feira de Artes e Culturas, puseram-me em contacto com uma senhora que faz artesanato de madeira que se usa no fabrico dos palitos: objectos artísticos, facas, moinhos. Esta senhora e a sua filha produzem estes objectos numa garagem, à porta fechada. Ora, eu sei que o maior valor do artesanato não é a peça, é o processo... estas artesãs estão a roubar o maior valor ao artesanato, ao trabalhar fechadas na garagem... porque o que está aqui é culturalmente o modelo da fábrica: apenas interessa o produto acabado que se coloca no mercado. Fazem peça a peça e só vendem a peça. Porque é que a associação local não passa a ser um espaço onde se faz artesanato, de forma que públicos exteriores possam assistir ao processo de fabrico? Por uma alteração da organização cultural o acto escondido de fabrico de artesanato passa a ser exposto, tornando-se num recurso de desenvolvimento da aldeia pela sua captação de público. O público tem de aí se deslocar, pois só aí poderá usufruir daquele bem que é o processo. Com pessoas lá podem surgir todo um conjunto de outras actividades económicas. Isto é valido na aldeia ou no bairro da cidade... se criarem uma estrutura de identidade criam sustentabilidade, se se descaracterizarem e passarem a organizar-se apenas para servir e servirem-se do exterior esvaziam-se. Historicamente sempre assim foi, os pequenos espaços são estruturas de diversidade e de complementariedade. Covas do Monte já percebeu isto. O passo seguinte, em Covas do Monte, é deixar que o processo de desenvolvimento se torne autónomo. Desde o Verão deixei de alimentar o processo: estou a tentar que haja na aldeia alguém que faça a ponte com o exterior. Passo a ir a aldeia, passar-lhe os contactos, quem vai fazer os contactos são as pessoas de lá. O grupo de pessoas de Covas do Monte faz os contactos e eu passo a SURGIR NOS GRUPOS MAS CONVIDADO. Por esta minha posição, os actores locais, notam uma redução de público e tem-me questionado. Agora a conversa tem decorrido à volta já não da reconstrução da memória e do que fazer na aldeia mas como continuar a atrair pessoas. Como tem havido uma redução nos subsídios à produção de cabras, nesta altura grande parte do rendimento da aldeia já são os visitantes: o restaurante e o que se vende para o restaurante e nas pessoas que são chamadas para trabalhar em torno do restaurante e da associação. Os mais idosos já não podem fazer o pastoreio, no entanto ele é mantido pelas pessoas activas. O que leva estas pessoas a pastorear? Neste momento ainda é o rendimento que retiram dos subsídios, mas com a continuação da tendência de redução desta receita o pastoreio não compensará... apenas passará a compensar como elemento de identidade da aldeia. Se houver uma identidade própria, essa identidade traz o público... se houver público na aldeia há um conjunto de negócios que é possível fazer... desde a compra de refeições até um conjunto de outras novas actividades ligadas ao usufruto do espaço natural. 3 - PORTUGAL TRADICIONAL : A REDE E O DESENVOLVIMENTO LOCAL É um projecto imaginado a partir desta ideia... a visibilidade que se pode dar a espaços como Covas do Monte, a espaços onde se produz artesanato no fundo fazer da produção o produto turístico... é fazer chegar a informação a públicos que procuram justamente estes espaços. Nesta época tão globalizada os processos locais atraem muito público. Básicamente, o ”Portugal Tradicional” é um site... onde tem informação de locais, de pequenos projectos, de quintas... transforma o processo de produção num produto turístico. É uma tentativa de tornar visível, o que está oculto: os pequenos locais que doutra forma passam despercebidos. Está organizado e dirigido a um conjunto de públicos que procura novas formas de fazer turismo e que está por aí a surgir. É a esse público que “Portugal Tradicional” se dirige. O que me leva a ir às “Capuchinhas de Montemuro” comprar uma capa ou um casaco? Com certeza não terá a ver com a necessidade de me agasalhar do frio. Tem mais a ver com o contacto com as pessoas que o fazem, com a possibilidade de conviver com a cultura. Trago um casaco, mas trago muito mais que um casaco, trago uma cultura comigo. Por parodoxo que pareça, somos mais solicitados, no “Portugal Tradicional”, por empresas especializadas em turísmo... as associações de desenvolvimento local ainda não viram o interesse desta rede para a sustentabilidade dos seus projectos. Parece que algumas Associações de Desenvolvimento Local têm algum pudor em assumir a dimensão económica, eu não tenho essa visão: a economia faz parte da nossa vida - descurar o factor económico no processo não permite a mudança - o que está no terreno tem de trazer mais valias económicas, ou as pessoas ficam permanentemente dependentes. Começam a surgir novas oportunidades e novas olhares. Por exemplo, em VALADARES, uma freguesia de S. Pedro do Sul. O presidente da Junta de Freguesia é técnico de turismo e assistiu ao processo de Covas do Monte e a tudo o que ele envolveu. Em conjunto com o Centro Social de Valadares começámos a imaginar a constituição de uma cooperativa que organizasse a produção agrícola que ajude a estruturar os produtores e a organizar alguma produção local e que pressupõe a vertente turística na valorização e escoamento desses produtos. Logo que haja o mínimo de organização passa a ser um local do “Portugal Tradicional” Outro exemplo, o de MACIEIRA DE ALCOBA: aqui o processo está mais adiantado. Existe um restaurante (cujo projecto se desenvolveu com apoio do Município) e algum alojamento de iniciativa privada. Em embrião está a ideia de a Associação Local dinamizar a reconstrução de moinhos de água e a transformação de um lago numa piscina natural. Outra ideia que aí começa a ganhar consistência é a de conseguir os meios para fazer agricultura em terrenos que se encontram ao abandono. Para isso estão a contactar os seus proprietários no sentido de obter a sua cedência de utilização. Posteriormente os produtos serão de preferência consumidos no restaurante. Há também a ideia de alugar pequenas parcelas a quem pretender produzir alguns dos seus alimentos e fornecer os serviços necessários ao desenvolvimento dessas hortas aos seus locatários. Como em todos os pequenos espaços a diversidade e a complementariedade são o suporte para a sustentabilidade. Há sempre dois polos de intervenção: a rede que mobiliza os públicos, e o diálogo com quem está nos locais, ajudando a criar visibilidade, organizando os processos internos para que se transformem em mais valias, criando pontes entre o local e os seus públicos.
4- INTEREQUIPAS: ORGANIZANDO O PENSAMENTO ESTRATÉGICO Durante todo o processo existiu um espaço fundamental que me permitiu questionar-me perante a diversidade: as reuniões inter-equipas do ICE . O ICE não é uma organização e homogénea é um espaço onde se discutem ideias e se reconstitui a estratégia. Um espaço de diversidade: onde cada um pode sentir “eu sou diferente e ainda bem”. As reuniões inter-equipas provocam-me a sensação de desconforto/CONFRONTO, acordo/desacordo. São enriquecedoras pela diversidade - pelo confronto – cresço eu próprio, desenvolvo a capacidade para argumentar as minhas ideias – e isso pressupõe um crescimento. São espaços onde se organiza a reflexão sobre a prática, onde se argumenta a partir dela e se enforma a prática. 5 – DESAFIOS: ANTEVENDO FUTUROS Não é por acaso que o meu símbolo é o moinho... - é ver crescer um processo - é ver o processo tornar-se sustentável pelas próprias pessoas - ver um conjunto de pessoas no local a construir e a reconstruir-se - é voltar a Covas do Monte como visita e ouvir as pessoas a falar dos seus lagares e dos seus projectos - é cada vez conhecer mais processos e tentar percebe-los Por que é que uns processos falharam e outros não? Qual o ponto de viragem? Vitor Andrade Março 2010
Participantes: 51 pessoas de cerca de 20 associações O debate decorreu em torno de cinco questões chave: O que se entende por democracia participativa? Que relações entre a democracia participativa e democracia representativa? O que é o Associativismo Cidadão? Quando é que este é uma componente da democracia participativa? Como promover a defesa da sustentabilidade económica do associativismo, enquanto condição necessária ao funcionamento da democracia como um todo ? Ponto de partida para a reflexão: As desigualdades que se manifestam na nossa sociedade, e o papel determinante que cabe às associações na inversão desta realidade: As desigualdades entre os cidadãos: não se limitam a questões económicas, são também desigualdades no acesso ao exercício da cidadania do poder. “O mais trágico da pobreza não é ao falta de teto ou comida é o resultado que produz na auto-estima das pessoas” (Madre Teresa de Calcutá) ... e desta auto-estima (auto-estigma) criada pela pobreza resulta a descrença da possibilidade/utilidade da participação.
As desigualdades entre os dois pilares da democracia, isto é, entre a democracia representativa e a democracia participativa : embora contempladas com dignidade igual na constituição, a primeira é financiada na propaganda, nos funcionários, nas actividades, nos eleitos... enquanto a segunda não é financiada de maneira nenhuma. Os próprio financiamento dos projectos, quando existe, exclui o funciona da associação que lhe dá vida... e as associações ainda têm de carregar o estigma da subsideodependencia. Será a democracia representativa considerada subsideodependente? democracia participativa? Democracia? É o poder partilhado. Democracia participativa ? O poder partilhado que se exerce ( enquanto a democracia representativa é o poder partilhado que se delega). As pessoas encontram-se em torno de incómodos, de desejos, de gostos, de projectos... democracia participativa: forma de poder em que pessoas ou grupos participam num objectivo partilhado, /e conseguem colocar na agenda pública assuntos ou questões que preocupam o grupo – de forma a influenciar decisãos políticas Combate às desigualdades do exercício de poder
Associativismo Cidadão? associações enquanto escolas de cidadania: através do convívio entre gerações, do trabalho em grupo, em equipa... da partilha do sonho, do projecto... do respeito pelo outro, pelo da minha equipa ou pelo adversário... Como se desconstroi o perfil de “ser mandado”? Se temos capacidade para fazer coisas isso muda a nossa personalidade... a maioria dos dirigentes associativos de hoje formou-se como cidadão participativo no seu percurso associativo desde criança ou jovem. Enquanto escolas de cidadania as Associações são, a longo prazo, factor de coesão social . relação entre associação e população: necessidade de informalizar;clareza de objectivos visibilidade dos mesmos para o público/transparencia/abertura do espaço público/ousar transmitir ideias novas A relação é mútua: há a participação que a associação que provoca na comunidade X mas também a comunidade gera participação na associação. Pedagogia da escuta. Quando é que o Associativismo Cidadão é Democracia Participativa? È necessário transcender os seus limites locais...colocar na agenda pública os temas do grupo – influenciar decisãos políticas É necessário descobrir os novos espaços/ ferramentas de expressão de cidadania Construir redes... Um projecto para a cidade?para a região? Causas partilhadas/Visibilidade Partilhar poder pressupõe prescindir de uma parte do meu poder para dar os outros, e construir o meu poder em função do poder do outro.Ao promover a associação do Outro promovemos a nossa; e necessário compreender que poder partilhado é poder fortalecido. As associações são formas organizados de democra participativa quando são elas próprias de espaços de aprendizagem/ construção de cidadania. E também promotoras de cidadania. Quando assumem a preocupação, a batalha, da formação cidadã -do cidadão que participa, intervem, que se sente incomodado com as injustiças e é capaz de se projectar para o futuro na construção de futuros alternativos.
democracia participativa e democracia representativa? Como é que a democracia representativa e participativa se podem articular dentro de uma associação? A assembleia geral como espaço de participação é suficiente? A participação mais activa é bem vista? Necessidade de eliminar a hierquização na capacidade de transmitir ideias novas... A historia do associativismo é a história da construção de cidadãos... a democracia representativa tem de espelhar esta nova pratica de poder dos novos cidadaos.
E não esquecer: Que este Workshop se insere no Movimento do Associativismo e Democracia Participativa... Que já aderiram mais de 100 associações Que se prevê a realização de um Congresso em Novembro 2010 Que se pretende dignificar /requalificar /fazer reconhecer o papel do Associativismo na construção de cidadão participativos/factor de coesão social Que se pretende dignificar /requalificar /fazer reconhecer a Democracia Participativa enquanto sustetáculo da Democracia, a par com a Democracia Representativa. Que se apresentará um Caderno Revindicativo.
“Para a Construção de Um Pensamento Estratégico”
17 e 18 de Julho de 2009 (versão curta) 1.Em retiro, num agradável e acolhedor hotel rural situado em Azaruja, realizou-se, mais uma Interequipas em que participaram, como habitualmente colaboradores do ICE, técnicos de autarquias e de associações de desenvolvimento, profissionais de saúde, professores e animadores de projectos provenientes de vários pontos do país.
A lotação das instalações ditou que não se pudessem ir além dos 40 participantes. 2.Em cada um dos dois dias em que decorreu o Encontro debateu-se um tema: - O exercício da cidadania em tempos de autocracismo e de burocratismo das instituições; - A construção de um pensamento estratégico para a intervenção em bairros periféricos urbanos (em contra ponto ou continuidade com a intervenção em meio rural destruturado). 3.Duas experiências trazidas por convidados induziram a problematização de cada um dos temas Em relação ao primeiro tema serviram de mote: - O trabalho de consciencialização politica desenvolvido na Alemanha designadamente no âmbito da educação, descrito por Christian Ernst da associação Zeitpfeil; - Uma reflexão sobre a tendência para o agencialismo de muitas associações e o contra ponto que pode constituir o lançamento de um movimento em torno da afirmação da Democracia Participativa, feita por Carmo Bica, da ADRL.
Em relação ao segundo tema: - Irene Santos falou da interacção com comunidades/angolanas e cabo-verdianas levada a cabo pelo Moinho da Juventude no Bairro da Cova da Moura, dando conta do esforço realizado em ordem à reconstrução das suas identidades. - Mirna Montenegro referiu-se à sua experiência de trabalho com comunidades e bairros periféricos, apresentando algumas estratégias que considera pertinentes (desocultação deliders, criação de redes nomeadamente para o combate ao fechamento das instituições, etc). 4.O aprofundamento do primeiro tema, realizado em grupo, traduziu-se numa grande diversidade de considerações de que se destacam, entre outras que se poderiam enumerar: - A tónica a pôr na politica, enquanto expressão do nosso sentimento de incomodidade perante as injustiças; - A importância de se criarem e multiplicarem espaços de debate e reflexão que ajudem as pessoas (os profissionais) a vencer medos e a produzir estratégias; - O imperativo de se recorrer a uma multiplicidade de metodologias e estratégias para se conseguir implicar as pessoas (pedagogia do superavit, fazer do obstáculo um recurso, etc.); - A necessidade de se reforçar a capacidade argumentativa no confronto com as instituições.
Em aberto ficaram várias questões de que sobressai, talvez, a formulada em torno da preocupação de se assegurar a continuidade dos processos quanto os projectos chegam ao seu termo, por força do fim dos respectivos financiamento.
5. Da reflexão produzida pelos grupos retiraram-se, em plenário, algumas conclusões/recomendações: - A importância de se investir na organização e mobilização dos que incomodam; - A necessidade de tecer redes Interpessoais nos interstícios das instituições, - A obrigatoriedade de se trabalhar a promoção da cidadania também em relação a nós próprios e não apenas em intenção aos públicos a que nos dirigimos. - O imperativo de se resistir à “formatação A4”, expressão usada para caracterizar o peso da burocracia traduzido pelos financiamentos e que entrava a acção dos intervenientes.
6.O aprofundamento do segundo tema, também realizado em grupo, conduziu a um conjunto de questionamento e/ou linhas estratégicas de acção que se organizaram em torno de itens propostos em Plenário; no inicio da reflexão, sob a forma de desafios feitos por Rui d’Espiney.
A saber:
Características das Periferias Urbanas - Não há uma característica, há muitas variantes. Só no terreno é que caracterizamos o local, e mesmo assim não é uma fotografia estática, devemos perceber dinâmicas, códigos e evolução. O mosaico intercultural pode servir de ponto de partida; - Existência de várias exclusões; - Não está em causa a localização geográfica mas a exclusão; - Relações de vizinhança fortes sublinhadas na relação com o exterior; - As relações de poder internas vêm da necessidade de afirmar o grupo de pertença.
Obstáculos - Os caciques (quem se mobiliza, “quem representa”) que vêem o exterior como ameaça; - As políticas de financiamento; - Olhar a partir das nossas próprias referências; - Falta de projectos de vida. É obstáculo mas pode ter potencial uma vez que daí se pode partir para uma intervenção; - Metodologia do “penso rápido” (resposta ao imediato); - Obstáculos relacionados com a articulação dos vários intervenientes e os seus vários mandatos e quadros de referencia.
O Que Pretendemos? - Qualificação - Capacitação - Autonomização - Emancipação
Perfil do Animador (sem filhos, não dorme, não come, toma várias caixas de prozac ) - Adquirir confiança; - Saber Identificar mediador/descodificador de código interno e externo; - Saber colocar-se ao dispor do outro; - Deixar-se mudar sem se deixar assimilar; - Autenticidade na relação; - Gerir expectativas para não defraudar; - Gerir eventuais dependências; - Encarar o outro como emancipado e não como aquele que pretendemos antecipar; - Partir da sua singularidade; - “Invententorismo”; - Abertos à diferença/valorizar potenciais; - Ser apaixonado/contaminante; - Descodificar relações de poder e geri-las; - Conhecer as culturas e fazê-las afirmarem-se e desenvolver; Estratégias - Os processos tem de ser construídos com as pessoas; - Navegação à vista – consoante os tempos e os imprevistos; - Associativismo.
7.A reflexão dos grupos fechou-se com uma devolução realizada por Fernando Ilídio que, para além de relevar a sua riqueza, terminou alertando para a necessidade de se evitar paternalismos na intervenção, de se dar protagonismo às crianças, de se contrapor, a um pensamento dicotómico, um pensamento reticular.
8. A terminar definiram-se três linhas de pensamento que Rui d’Espiney retirou da reflexão produzida pela Interequipas
1 - Assumir a necessidade de pôr a política no centro das preocupações (cidadania política); 2 - Nova afirmação da democracia participativa; 3 - Trabalharmos para a centralidade do periférico (tratar o outro como emancipado – olhar o periférico como um cadinho de projectos próprios a serem desenvolvidos).
9. O Encontro foi apoiado pela Fundação Ebert que esteve presente através do seu representante em Portugal Reinhard Naumann, o qual nas intervenções que fez na abertura e encerramento, sublinhou a importância de iniciativas como as que o ICE realiza orientadas para a emancipação das pessoas e para a promoção da autonomia no seio das instituições no quadro de uma sociedade civil que se mostra frágil.
:No Mundo dos Porquês
:No Mundo dos Porquês (para ver a reportagem no original, procurar em: ESCOLA página 14 (Reportagem da Ligia Calpez) (A Quinta de Educação e Ambiente nasceu na Reserva Natural das La- goas de Santo André e da Sancha, no ano 2000, viabilizada pela parceria construída entre o ICE - Instituto das Comunidades Educativas, o ICNB - Instituto de Conservação da Natu- reza e da Biodiversidade, a Câmara Municipal de Santiago do Cacém e a Junta de Freguesia de Santo André.) --
O projecto Portugal Tradicional, que teve a sua inspiração em experiências francesas homólogas de aproximação dos autocaravanistas às explorações agrícolas, pecuárias e especialmente de produção de vinhos. A modalidade adoptada pelo Portugal Tradicional , pretendeu-se mais informal, isto é, os utilizadores não necessitarão de qualquer inscrição prévia ou quotização. Pretende-se deste modo proporcionar a junção entre o autocaravanismo e os espaços genuínos do nosso país. Estes espaços são: quintas agrícolas, produtores de vinhos, criadores de animais, complexos de produção de artesanato, associações e projectos de desenvolvimento local, etc... Apresenta-se deste modo uma variante turística caracterizada pela mobilidade, a gentes e locais que anseiam pela presença de visitantes, com quem possam conviver e mostrar os seus produtos. Este tipo de fórmula de dinamização do autocaravanismo em conjunto com os espaços rurais tem uma clara aceitação em França, através das fórmulas France Passion e Bienvenue à la Ferme. Estas redes de locais de paragem já contam com mais de 1300 espaços aderentes, e com um percurso que já conta mais de 15 anos repletos de sucesso. Este projecto é o resultado de um convénio entre o Portal CampingCar Portugal (www.campingcarportugal.com) e a ANIMAR - Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Local (www.animar-dl.pt). É esta faceta que atrai os milhares de autocaravanistas, portugueses e estrangeiros, que percorrem o nosso país durante todo o ano, sem influências da sazonalidade. Esta actividade turística envolve estatísticas impressionantes, ao nível do elevado crescimento anual que se verifica no número de adeptos. QUE VISITAR? A aldeia das 2500 cabras Covas do Monte é uma pequena aldeia escondida num dos vales da Serra de São Macário, em São Pedro do Sul. É aqui que se encontra um dos maiores, senão mesmo o maior rebanho do país. Todos os dias, 2500 cabras saem de manhã para a montanha, num ritual ancestral de pastoreio comunitário que envolve toda a pequena povoação de apenas 56 habitantes. Ao fim da tarde, no regresso à aldeia, os animais parecem saber de cor o curral e a porta certa. Covas do Monte é uma aldeia de rosto antigo, onde se encontra ainda um Portugal raro e já muito distante.